O Clássico dos Milhões

Escrevo na véspera de um clássico. Mas não de qualquer clássico. Do maior!

O que é um clássico sem lembranças? Vamos a elas!!

O ano é 1979 e eu tenho sete de idade. Já sabia ler, escrever e me apaixonar. Dá-lhe Vasco!! O Fla tem Zico, Júnior e a Rádio Globo. O Vasco, além da minha torcida, as contratações de Xaxá, Afrânio e o retorno de Zandonaide. Putz(!), a mídia adorou e tome sacanagem! Entretanto, depois que o jogo começou quem sacaneou mesmo foi Catinha (lembra?) e Roberto Dinamite que só fez três gols! Placar final: Vasco 4 a 2!!!!! A musiquinha ainda está em meu inconsciente: “Catinha que dança é essa que o corpo fica todo mole?…”. Se eu lembro, imaginem o Júnior! Rá, rá, rá, rá, ra…

O ano ainda é 1979 e em um campeonato especial (que se fosse ganho por outro não seria sequer considerado) um moleque seboso nos fez chorar. Tita jogava no lugar de Zico, desde sempre sua maior ambição, e o Flamengo ganhou por 3 a 2. Este começou ganhando por 2 a 0 e ainda no primeiro tempo o Vasco empatou com uma mortífera cabeçada de Roberto para baixo que fez o goleiro Cantarele arrebentar a bochecha na trave tentando encontrar a bola! Sensacional!

Agora estamos em 1981 no primeiro e muito possivelmente último jogo das finais. O Vasco precisando ganhar três jogos seguidos para ser campeão, ao Fla bastando um empate neste primeiro e, caso o Vasco vença e haja um segundo jogo, mais uma vez, apenas um empate. E explode Vasco! Roberto Dinamite 2 a 0! Dois lindos gols: uma porrada de fora da área e uma falta cobrada de forma rasteira que fez Raul ficar procurando a bola enquanto ela se chocava às duas traves antes de entrar! Sou obrigado a exclamar novamente: sensacional! A imprensa, como não poderia deixar de ser, arrumou uma justificativa para derrota. Disse que o time rubro-negro estava abalado pela morte do ex-técnico do Fla, Cláudio Coutinho. O supervisor flamenguista também faz pouco e diz: “quarta-feira o Flamengo será campeão!”.

Começa o segundo jogo e uma incrível pancada de chuva está caindo sobre o Maraca desde a tarde. Além dos vestíários, o gramado está alagado. A imprensa, para variar, diz que o Flamengo será prejudicado. Até parece que Amauri, Marquinho, Wilsinho e Rosemiro não são jogadores leves.

Wilsinho dá uma porrada em Lico e tira este de campo, João Luís dá uma porrada em Tita e é expulso. O jogo está tenso, o Vasco desde cedo com um a menos e o final se aproxima. 44 do segundo tempo, Dudu levanta a bola na área, Roberto resvala, Silvinho disputa, Amauri toca, Marinho escorrega, rá, rá(!), a pelota para na poça e Januário de Oliveira grita: “Robertoooo!!!!!!”

Rá, rá, rá, rá, rá…. Porra, até hoje eu me sinto próximo da transcendência quando assisto a esse gol!

Estamos no primeiro tempo do terceiro jogo e, até o momento, um baile vermelho e preto, dois a zero com direito a um golaço por cobertura de Nunes. A verdade é que o Vasco joga mal. Começa o segundo tempo, este vai passando e o Fla apenas cozinha o jogo. O Vasco, por sua vez, apenas mostra garra. 37 minutos, Roberto passa e o reserva Ticão acerta o gol. A torcida flamenguista é tomada por um fortíssimo mal-estar. Rapidamente um torcedor pago (na realidade levou um calote) por dirigentes rubro-negros invade o campo para esfriar o jogo. O plano dá certo e o juiz, além de não dar acréscimos, ainda diminui em um minuto o tempo regulamentar da partida evitando uma provável prorrogação motivada por um também provável empate do Time da Colina… Aí eu choro: au, au…!

1982: decisão da Taça Guanabara! Dinamite lesionado (incrível, jogou com uma distensão) sai no intervalo. Adílio faz o gol do Fla aos 44 do segundo tempo… Como não poderia deixar de ser, algo controverso envolve a arbitragem: na partida anterior Wright apitou com um microfone escondido e repassou o áudio à Rede Globo. Meu Deus!…

Apesar de um primeiro turno sofrido, o ano de 1982 me reservou a alegria de assistir pela primeira vez o Vasco levantar o caneco de campeão! E como não poderia, em hipótese alguma, deixar de ser, em uma final contra o Flamengo. E que final! O Vasco foi superior desde o início, mas no segundo tempo arrebentou. A vitória por um a zero foi magra, ou melhor, magérrima. O juiz novamente foi Wright e, por incrível que pareça, Júnior foi expulso! Entretanto, uma observação deve ser feita: o cartão vermelho saiu com bastante atraso! Júnior deveria ter sido expulso quando Dinamite, em uma sublime arrancada, deixou Figueredo e Marinho a léguas de distância e, no desespero, o lateral flamenguista deu violento pontapé no artilheiro vascaíno a meio metro da entrada da área. O próprio Roberto cobrou a falta e a bola caprichosamente bateu na parte debaixo do travessão quicou em cima da linha e saiu (foram as preces de Raul!). O gol vascaíno havia saído bem no início do segundo tempo em uma cobrança de escanteio executada por Pedrinho Gaúcho em que a bola veio fechada no primeiro pau; Marquinho passou que nem um raio, desviou de leve o cruzamento e, a partir daí, o que se viu foi um baile cruzmaltino com direito a duas bolas na trave, outros gols perdidos, arrancadas de Roberto e embaixadinhas de Ernani (interrompidas por uma criminosa voadora de Figueredo que também deveria ter sido expulso). Em um único momento o espetáculo vascaíno se viu realmente ameaçado. Porém, o desfecho deste momento fez o espetáculo se tornar ainda mais grandioso; na única vez no segundo tempo em que o Fla conseguiu trocar passes penetrando a área do Vasco com perigo, Zico estava com a bola nos pés entre a marca do pênalti e a da pequena área, mas entre o Galinho e o gol havia Acácio… A pausa é em respeito àquela defesa que palavras não podem explicar nem descrever!

Apesar de toda história ser bela, a tragédia humana é assim, estamos condenados ao acaso porque não conhecemos os desígnios do Grande Arquiteto do Universo. Creio que possivelmente não possamos conhecer. O ano agora já é o de 1983, o campeonato brasileiro é disputado em chaves e nas quartas-de-finais cruzam-se Vasco e Flamengo. A primeira partida o Flamengo venceu por dois a um, obrigando o Vasco a entrar na segunda precisando de um placar em que obtivesse a seu favor uma diferença de dois gols. O Vasco fez um a zero no primeiro tempo através de Elói em passe de Dinamite, no segundo, em forte pressão vascaína, aos 43, o contra-ataque rubro-negro encontra Zico livre para decretar o empate e a eliminação do meu querido Vasco. Para espanto geral, Roberto Dinamite perde o controle e tenta agredir Romualdo Arppi Filho (o juiz)! Contido, é levado ao vestiário. Repentinamente surge outra vez em campo e precisa ser novamente contido até pelos adversários Zico e Júnior. Talvez, a reação do meu maior ídolo tenha sido um marco na progressiva perda da minha inocência infantil pelos seus reais motivos. Um ou dois dias antes Roberto havia descoberto que Jurema, a sua esposa, estava com uma maldita doença incurável.

Vou parar por aqui por um motivo: não sei exatamente se posso afirmar, mas acho que a partir dali nenhum Clássico dos Milhões foi igual. Nem para ele nem para mim.

Saudades…