O caso Portuguesa de Desportos

Vascaínos, acordem do seu torpor.

O presidente da Portuguesa de Desportos, que foi da 1a divisão, que foi da 2a divisão, e que disputará na próxima temporada – se ainda existir como clube de futebol – a 3a divisão admitiu esta semana, com todas as letras, que a escalação irregular de Heverton não foi um erro, mas vendida:

“Foi coisa premeditada. Não dá para falar muito, porque eu não tenho como provar e ainda vou acabar processado, mas sabemos da participação do departamento jurídico. E agora estamos tentando eliminar o Manuel da Lupa”

Como fonte, leiam o texto de 07/11/2014 de André Barcinski

Trocando em miúdos: o presidente de um clube da 1a divisão diretamente envolvido num dos episódios mais obscuros da história do futebol brasileiro admite que houve corrupção no caso. A imprensa esportiva? Em silêncio!

O mesmo silêncio de 11 meses atrás, quando, na última rodada do brasileirão, o incrível ocorreu. Relembrando: sexta-feira à noite, 6 de dezembro de 2013, o Lance! escreve a única matéria citando a suspensão de André Santos, que não poderia atuar no dia seguinte, sábado, contra o Cruzeiro, no Maracanã. No sábado, incrivelmente, André Santos atua. A perda de pontos decorrente da punição – certa de acontecer – seria suficiente para que as possíveis vitórias de Vasco e Fluminense rebaixassem o Flamengo no dia seguinte.

Mas o que aconteceu no domingo, 8 de dezembro de 2013? Nenhum jornal escrito, falando, televisado, blog… ninguém notou que André Santos havia atuado de forma irregular na véspera. Nem mesmo o Lance!, o único que havia veiculado na véspera, notou o errinho. Fico imaginando como o autor da matéria – infelizmente não assinada – pelo menos ele! – pode não ter percebido o problema. Deve ter ido passar uma semaninha no Nepal, escalando o Everest, isolado da internet. A nota segue online, no Lance!.

O maior episódio de amnésia coletiva da história da imprensa brasileira teve fim na terça-feira seguinte, quando explodiu a escalação irregular de Heverton, da Portuguesa. Neste momento a falha de memória acabou e a imprensa noticiou também a escalação irregular do Flamengo, como um problema menor.

Nesse momento certamente há vascaínos que, se leram o texto até aqui, estão questionando o que o Vasco da Gama tem a ver com essa história, já que quem se salvou na história toda foi o chamado rei do tapetão, o Fluminense.

Tudo.

Disputamos uma partida que não poderia ter sido realizada por falta de segurança mínima no estádio. Em sendo iniciada, deveria ter sido encerrada quando da pancadaria da qual fomos vítimas. Ainda assim, de forma surpreendente e irresponsável, a partida prosseguiu, com a aquiescência do banana que nos preside e com o apoio da tv – a mesma tv que tanto nos bateu por causa do incidente em São Januário, na final de 2000. Uma hora depois, sem sabermos de nada, estávamos rebaixados à 2a divisão, da qual tentamos nos livrar até hoje.

Imagine acordar no domingo sabendo que uma vitória do Vasco nos salvaria e rebaixaria o Flamengo. Imagine a descarga de vontade, adrenalina, força extra que isso nos traria. Mas a imprensa não contou.

Imagine então se o jogo fosse adiado, transferido (antes ou depois de começado) e soubéssemos desse pequeno detalhe. Mas a imprensa não percebeu seu erro.

O principal fato desse texto, pra ficar bem reforçado: Entre a noite de sexta feira, 6/12/2014 e o fim da tarde de terça-feira, 10/12/2014, ninguém da imprensa noticiou a escalação irregular de André Santos.

Não conheço, na história da imprensa mundial, fenômeno coletivo similar.

Eis que agora a verdade começa a aparecer.

Mas a mesma imprensa que não percebeu o problema em dezembro passado dá destaque zero pra esse escândalo.

O Ministério Público, por meio do Procurador Roberto Senise, investigou, investigou e… sumiu. Acho que também foi tirar umas férias – definitivas – no Nepal.

O Vasco da Gama? Em patético, submisso (e previsível) silêncio.

Os candidatos à Presidência do Vasco? Mudos. Como se nada tivéssemos com o caso.

Nos apequenamos tanto nesses últimos anos que não temos sequer voz pra exigir a investigação de um escândalo dessas proporções e cujas consequências sofremos até hoje. Nos apequenamos tanto em nossa mentalidade, nos acostumamos tanto a beber aquilo que a imprensa esportiva nos impõe que a torcida do Vasco perdeu seu senso crítico, sua noção da realidade.

Acordemos, Vascaínos. Não nos querem vivos, fortes, inquisidores.

Finda essa leitura, por favor, dirijam-se ao Maracanã. 1200 km me separam de cumprir minha obrigação e devoção.

Casaca!