O alemão

 

bandeira da alemanha

Durante cerca de dez dias até hoje, uma notícia dividiu as atenções – e o espanto – dos cariocas junto com o trágico assassinato do médico Jaime Gold na Lagoa: a explosão de um apartamento num prédio em São Conrado, atingindo gravemente um morador e danificando várias unidades residenciais.

Um morador. Markus Muller. Ou Mueller. Ou Markos.

Um alemão.

Totalmente queimado no corpo e com várias perfurações que podem ter sido realizadas com arma branca.

Telespectadores, leitores e ouvintes jamais souberam de qualquer dado a respeito da vítima que não fosse a sua nacionalidade.

O alemão.

Olhares mais atentos perceberam nas reportagens televisivas que seu apartamento explodido era decorado com muitas camisas de times de futebol nas paredes. Numa matéria de jornal publicaram uma foto sua ao lado de Zico.

Talvez fosse um médico também. Um engenheiro. Um matemático. Um costureiro.

Nenhuma informação prestada.

O alemão.

Markus Muller (adotemos este nome e grafia) faleceu hoje, depois de longa agonia.

Muito se disse a respeito da tragédia que o matou.

Um enorme vazamento de gás por dias.

Uma suposta automutilação com golpes de faca, somado ao azar da explosão súbita.

Um garoto de programa que entrou no apartamento para roubar-lhe um relógio Rolex e o torturou madrugada adentro.

O destino, talvez.

Curioso que os meios de comunicação não tivessem apurado sua provável ocupação. Provável. Uma das prováveis. Ou não.

Numa lista de agentes Fifa que atua na Inglaterra, é possível que conste o nome do alemão – ou de um homônimo seu -, titular da empresa Leblon Marketing, com o respectivo número de telefone celular.

Numa busca do Google, é possível que o processo de naturalização do alemão em 2012 exista – ou, claro, de um homônimo seu.

Pobre Fifa, pobre CBF.

Dias antes da explosão, a entidade brasileira havia sido denunciada nos jornais por conta de acordos realizados com empresas e empresários, supostamente lesivos aos interesses da excelência do futebol.

Então, o infeliz alemão, que talvez possa ter sido sido um agente Fifa – ou um mero homônimo, claro -, em processo de depressão, resolveu se matar utilizando uma faca – inclusive em ângulos desfavoráveis para um suicídio de qualidade.

Estava sentado numa cadeira.

Por azar, ou falha técnica, ou imperícia ou qualquer outra coisa, o apartamento onde morava explodiu em decorrência de um enorme vazamento de gás.

Enquanto o alemão padecia no hospital Pedro II durante a última semana, o couro comia na cartolagem internacional, desaguando na prisão de dirigentes de futebol ontem na Suíça, realizada pelo FBI, incluindo o ex(?)-presidente da CBF José Maria Marin.

No luxuoso e destroçado apartamento, os escombros rasgaram belas camisas que podem ter sido utilizadas por grandes craques nos gramados. Uma imagem simbólica de como o esporte mais amado do Brasil e do mundo tem sido tratado nos bastidores.

Os últimos dias de Markus Muller, ou Mueller, ou Markos, foram dolorosos e terríveis, desimportando que realmente tenha tentado o suicídio ou sido vítima de um atentado, ou assalto, ou qualquer outra coisa. Um ser humano crucificado em carne viva, voluntária ou involuntariamente falando.

Um alemão. Apenas isso. Ou muito mais?

Restaria saber se o seu último sentimento foi o do dever cumprido. Uma tarefa impossível de se realizar, mesmo para o melhor dos peritos.

Ou se tudo não passou de mais uma (infeliz) coincidência a ser esquecida rapidamente, num futebol brasileiro que não se cansa delas, tão fisgado que é pelas mesmas.

@pauloandel