A (nem tão) lenta agonia do futebol brasileiro

bola preta

Muito tem sido discutido, falado e aprofundado sobre a crise do futebol brasileiro, por diversos fatores.

Os sintomas evidentes estão no afastamento gradual dos torcedores dos estádios e até mesmo da TV. O futebol, que desde a inauguração do outro Maracanã, o de 1950, dava as cartas nos corações brasileiros, tem deixado de ser uma experiência física, sensorial, para lentamente virar um capítulo de novela – ou série na televisão fechada.

Há muito mais em jogo: o êxodo dos melhores jogadores e até mesmo os medianos, a debilidade na formação de talentos na base, o mercantilismo imposto por empresariados e mecenatos, o desprezo aos antigos celeiros de jovens craques, a medíocre cartolagem que faz dos clubes verdadeiras capitanias hereditárias em revezamentos espúrios de poder.

O imperialismo da TV, sim, que pretende mais do que ser a dona dos direitos de transmissão dos jogos, na verdade objetivado a propriedade do pretenso espetáculo. E o que dizer da “espanholização” das receitas e da visibilidade à tela?

O Brasil, especificamente, deu passos atrás quando aderiu ao plano do futebol padrão Fifa desde muito antes do Mundial de 2014. A redução da capacidade dos estádios aliada à exclusão econômica da torcida menos abonada tem sido um golpe para o esporte. O futebol brasileiro sempre teve mais apelo e fidelidade dos torcedores mais pobres, que o viam como principal hobby. Hoje, as arquibancadas disputam a presença das classes mais abastadas com cinemas, teatros, shopping centers, bares, etc – e, não raro, perdem. Os mais pobres estão de fora.

A questão da violência, um problema social generalizado, tem sido tratado com água açucarada e paliativos inúteis. Falta vontade política para as providências definitivas, sem a falácia de empurrar a culpa da segurança do Estado para cima das torcidas organizadas de bem.

A suposta elitização do certame nacional é um desastre para um país de dimensões continentais. Tomou-se como molde o campeonato italiano; como se sabe, a Velha Bota é territorialmente um Rio de Janeiro. Metade dos brasileiros não se vê representada nos jogos da televisão. Os baianos, pernambucanos, cearenses, paraenses, amazonenses, potiguares. Dezenas de milhões de potenciais espectadores. A Copa do Brasil é um funil sem maiores possibilidades para as equipes de menor investimento, salvo raríssimas exceções. Resultado: a cada ano, nas pesquisas, a proporção de brasileiros que afirmam não torcer para time algum aumenta.

A recente manifestação da CBF, sobre a punição dos times que não pagam seus profissionais em dia, oscila entre o humorístico e o extraterrestre. Enquanto a entidade nada em dinheiro, os clubes estão à míngua, utilizando seus direitos de transmissão como um limite de cheque especial – há décadas, vilipendiados que foram – e alguns ainda são – por gestões temerárias.

Para valorizar o mofado campeonato nacional com suas quase 40 rodadas arrastadas, desvaloriza-se os locais, tratados como laboratórios. Muitos times são meros projetos políticos de prefeituras do interior. O caso do Rio é emblemático, onde a maior parte das equipes não manda partidas em seus estádios, tendo em vista a precariedade dos mesmos.

Mudar um cenário de decomposição crescente há décadas, onde corporativismos e interesses pessoais mesquinhos foram priorizados, passa obrigatoriamente pelas duas categorias mais atingidas pelo velório da bola que assola campos, arquibancadas e arredores: as dos jogadores de futebol e torcedores.

Enquanto os aficcionados e os trabalhadores não se tornarem verdadeiros militantes na luta contra a pasmaceira chinfrim, a que está engessando o mais apaixonante dos esportes do Brasil, as capitanias hereditárias da mediocridade esportiva continuarão a ser uma triste realidade.

Desprezando o Maracanã, o Morumbi, a Fonte Nova, os garotos bem nascidos desfilam com suas camisas de Barcelona, Real Madrid e Manchester United tranquilamente.

Afinal, o que importa é “ir para a Libertadores”, por mais contraditório que seja.

@pauloandel