Não tão milionário assim

Sim, meu pai era rubro-negro. Não assumia publicamente, mas era rubro-negro. Tanto que no Natal de 1972 insistiu em me dar um uniforme de presente. Olhei aquelas listras pretas e vermelhas e me deu uma vontade quase que psicótica de incendiar tudo, igual o Jimi Hendrix fez com a sua guitarra em Woodstock. A única coisa que pude pronunciar naquele momento, tamanha a ira era: “Quéo a do Vaco!”. Claro que a uma altura dessas, todo mundo sabia o que eu tinha dito e meu pai, sem palavras, já tinha feito de tudo para que eu entrasse para o lado negro da força. Eu tinha vencido a guerra e para sempre.

Foi assim que ele me levou pela primeira vez ao Maracanã. Minha memória anda falha demais para descobrir qual foi o campeonato, mas lembro bem do resultado: 2 x 2. Para quem foi obrigado a assistir tudo da torcida adversária, ele saiu no lucro. Teve a experiência de ver o filho extasiado esperando entre o momento da compra do ingresso, dois dias antes, numa agência da Guanatur, e a da hora em que se sai daquele estreito corredor que leva para as arquibancadas, onde pude ver aquele imenso mundo se abrindo e eu, tão pequeno nos meus quatro anos, me sentindo pisando na lua. Ele teve a felicidade de me levar também no dia da primeira conquista de um Campeonato Brasileiro em 1974 e, daí, a coisa só cresceu.

Eu passei pela época em que um Vasco x Flamengo foi chamado de “Clássico dos Milhões”. Tempo em que o Maraca colocava com “facilidade”, mais de 130.000 torcedores gritando e se esgoelando até a hora em que pisavam o chão da rua, na volta para casa. Talvez um dos momentos mais felizes foi ver Marquinhos, em um lance de cobrança de escanteio marcar e decretar o campeonato carioca em cima do maior rival, depois de muito tempo sofrendo nas mãos de Zico e Cia. Je suis Dinamite, monsieur! Sou mais Edmundo rebolando ao som da goleada do Brasileiro de 97. Quero é Romário fazendo mil gols.

E eis que, muitos Cariocas depois, muita coisa mudou.

Jogadores, diretores, emissoras de tv, patrocinadores oficiais e não oficiais, pessoas físicas se passando sem saber por jurídicas, federações, cartolas, máfia enfim, passaram pelos corredores e se infiltraram nos tijolos que construíram uma imagem de décadas de brilho e encantamento. Voldemort tinha mandado os comensais fazerem o trabalho sujo. Hoje qualquer um beija o escudo na camisa em coletiva e fala sem saber o que disse só para uns cliques e likes nas redes sociais. Mesmo assim, uma taça é uma taça, e isso ninguém pode dizer o contrário quando ela está lá, brilhando na sala de troféus.

Agora, a batalha é no nosso campo. Confesso que isso é uma imagem que nem nos meus maiores sonhos poderia verificar. Pena que o momento esteja adverso, não este momento do campeonato, pois com 100% de aproveitamento até agora não pode ser visto como adversidade, mas no contexto de um campeonato que era a síntese do futebol nacional e no jogo que era o cartão de visitas com faixas gold, papel couché matt 300 gramas e verniz localizado nos escudos.
Mas vamos lá, seja o que for, o nosso estádio tem glórias e muitas histórias. É o único que suporta um dos quatro grandes times do Rio de Janeiro. O momento poderia ser outro e a rivalidade mais acesa, no sentido bom da palavra. Mas é o “que tem pra hoje”. Vamos torcer que meu próximo texto tenha coisas boas para falar sobre esse dia, pois no peito de cada vascaíno bate um coração bordado com a Cruz de Malta.