Não querem que você vá aos jogos

Já se vão quarenta e cinco anos de vida e seis anos e meio de um exílio voluntário na capital do Brasil. Sinto falta da minha família, dos amigos, do mar, da Floresta da Tijuca. E do futebol.

Não ir ao estádio e optar pelo sofá é uma ótima opção quando é uma opção. Aqui, a 1200km de distância do Maracanã, ir a um jogo de futebol é um programa dos mais raros, pelos motivos mais óbvios. O futebol local quase inexiste. E dificilmente os times dos grandes centros vêm jogar por aqui, mesmo com um estádio espetacular e maravilhosamente bem localizado, no centro da cidade.

Pois bem, em trinta dias, os quatro grandes do Rio terão vindo jogar aqui. Respectivamente: Vila Nova 0 X 2 Vasco, 24/05, terça feira, 9:30 da noite. 01/06, quarta feira, 21:45, Botafogo 0 x 1 Cruzeiro. Domingo próximo, dia 05/06, Flamengo x Palmeiras. Dia 16/06, uma quinta-feira, Fluminense x Corinthians farão outro jogão por aqui.

Investimento só em ingressos (sem contar outros gastos com transporte, alimentação etc) para eu (sozinho) ir aos quatro jogos: trezentos e vinte reais. Todos de meia entrada. Gastei oitenta reais numa meia entrada pra ver o Vasco numa noite de terça feira. Fotografei o ingresso. Andel não acreditou no preço. Menos de seis mil pagantes se dispuseram a (ou puderam) pagar a fortuna no ingresso. O Vasco invicto há 30 jogos se exibindo para um bando de gatos pingados.

No dia seguinte, o pai de uma amiguinha da minha filha, vascaíno, perguntou:

– Você não foi no jogo ontem não, né?
– Fui, claro!
– Ah, esqueci que você é fanático.

Conseguiram transformar a ida a um estádio num programa para fanáticos. A sensação que se tem ao ir a um jogo desses é que efetivamente não te querem ali. Se pudessem ter o estádio completamente vazio, com o jogo sendo transmitido, essa opção seria posta em prática. Os gênios do futebol brasileiro – leia-se Globo e CBF – ao contrário do mundo inteiro, acham que o futebol pode sobreviver como paixão exilando o torcedor do estádio.

Mais público significa, pra essa gente: mais pessoal de apoio, mais policiamento, mais transtornos no trânsito e transporte público, mais gastos com banheiros, mais bares abertos etc. São números e não paixão. Por isso, cobrar uma fortuna pelos ingressos é parte importante desse rolo compressor, que alija dos estádios justamente a camada mais pobre da sociedade. Que família aguenta pagar 80 reais numa meia entrada para um espetáculo desses? Pai, mãe e filho, juntos, consumirão, numa ida ao estádio, cerca de 300, 350 reais numa noite. Quem tá podendo?

Já vi reportagens na TV falando que o Flamengo é o time que mais tem sofrido com essa mudança da torcida. A falta de um domicílio associada ao fato de que o torcedor comum, aquele que vinha de ônibus e trem, desapareceu devido ao preço do ingresso, transformou a “nação” num coletivo de almofadinhas, gente que até ia ao estádio antes mas que não era a mola propulsora daquele urro – que desapareceu. Claro que esse fenômeno é comum a todos os clubes, mas certamente o Flamengo é o que mais sofre com ele, pois o Vasco tem São Januário (que não é frequentado pelos frescos, por ser “longe, perigoso” etc. O Fluminense já tinha um público mais elitizado antes. E o Botafogo continua com seus mil torcedores.

Quarta feira passada, cerca de oito mil abnegados testemunharam Botafogo x Cruzeiro. Queria muito ter ido. Mas o preço não me permitiu. Domingo próximo teremos Flamengo x Palmeiras. Dia 16, Flu X Corinthians. Jogos interessantes o suficiente para lotar os 74 mil lugares do estádio. Ficarei surpreso se 40 mil lá estiverem em cada um.

A desculpa esfarrapada de ocasião é o plano de sócios. Como estes têm de ter alguma (grande) vantagem financeira na aquisição dos ingressos, sobe-se o preço para o público não sócio para justificar a redução do ingresso dos privilegiados. Tal procedimento não se justifica. O sócio (estou falando do Vasco, mas poderia falar de qualquer clube do Rio. É tudo a mesma porcaria, infelizmente) se lixa pra comprar e retirar ingressos para um jogo. E para pagar as mensalidades. Volto ao Andel, que escreve aqui no Panorama. Eu o ouço reclamar de problemas dos mais estapafúrdios com relação ao título de sócio do Fluminense dele há pelo menos dois anos. Sem solução. Ontem mesmo falávamos disso. Os problemas mudam, seguem inacreditáveis e insolúveis. Portanto, não é só preço de ingresso que irá satisfazer o sócio. Mas é não aborrecer quem quer contribuir com o futuro do seu clube com seu dinheiro.

Tenho certeza de que o clube que primeiro tiver a coragem de peitar essa ditadura dos preços vai sair, e muito, no lucro com o torcedor. Volto ao exemplo de Brasília: conheço muitos meninos com seus 7, 8, 10 anos que hoje se dizem torcedores de Real Madrid, Barcelona, Chelsea e companhia que jamais estiveram num estádio de futebol. Se o ingresso fosse de 20, 30 ou até 40 reais, muitos desses já teriam ido ao estádio. E entrar pela primeira vez num estádio para assistir um jogo ao vivo, com torcida e estádio cheio, é inesquecível. Quem o fizer estará conquistando os corações de muito torcedor órfão do futebol do Brasil. Basta querer.

Até agora, ninguém quis. E ninguém parece querer.

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Este texto foi publicado hoje, também, no Panorama Tricolor, do qual sou também administrador e no qual escrevo há quase quatro anos. O parágrafo a seguir não está na versão “tricolor” do texto.

Eu acredito piamente que é obrigação do Vasco levantar essa bandeira e voltar a trazer o povo para os estádios. Nós já convivemos por muito tempo com essa falácia de que o “mengão” é o time do povo. Balela que qualquer vascaíno sabe ser história da carochinha.

Estamos num momento de crise. Pouca grana. Muita gente desempregada.

Botem o ingresso a preços populares. Vinte reais a arquibancada dos jogos de São Januário. Eu garanto que a torcida vai entupir o Caldeirão. E que o Vasco, com essa medida simplória, vai, novamente, incomodar os poderosos que querem nos ver diminuídos.