A mudança do vento

Brasil_Italia_Sarria

1982. Havia acabado de ver, pasmo, o Brasil ser eliminado pela Itália no Sarriá. Tinha assistido o jogo na casa da minha avó com meus pais.

Mais pro fim da tarde, voltamos pra casa no Fiat 147 amarelo do meu pai. Viemos ouvindo a Rádio Globo. Nela, Kleber Leite urrava acerca dos muitos defeitos da seleção. Lembro, do alto dos meus onze anos, dessa ter sido a primeira vez na vida em que ouvi o vocábulo “merda” numa rádio.

Minha surpresa só aumentava. O time era imbatível até horas atrás. Perfeito. Voa canarinho, voa. De repente estou eu num carro ouvindo um repórter, aos berros, chover críticas ao time dos sonhos.

Não entendi nada.

Com o repetir da cena, com o passar dos anos, deu pra compreender melhor.

A seleção é “vendida” de forma ufanista, como se fosse a mais perfeita das equipes. Os problemas são deixados de lado pela grande maioria dos que cobrem o dia a dia. Tudo caminha maravilhosamente rumo ao hexa (como nas duas Copas anteriores) até que algum momento provoque a virada. O ponto de inflexão da curva.

Esse momento, em Copas do Mundo, normalmente é posterior à derrota definitiva na competição. O mar de lama surge com força total. Aparecem os grandes erros, as brigas internas, falta de treino, teimosias…

Nesta Copa, no entanto, esse momento chegou antes da derrota. Felipão cometeu um erro primário para um homem que lida com a grande imprensa há cerca de vinte anos. Antes do jogo com a Colômbia, numa entrevista coletiva, mandou a imprensa que não concordava com ele para o inferno.

Grande erro.

Dali pra diante, grandes cardeais da imprensa abandonaram o barco, nadaram até a praia e, ainda na areia, passaram a vociferar contra Felipão e seus métodos (ou ausência de). Foi nesse momento que o público passou a ter ciência da falta de treinos, da indigência tática e surgiram as críticas mais pesadas ao chororô da seleção.

Críticas justíssimas, por sinal.

Em cima de problemas conhecidos desde muito antes de sua revelação.

Se o Brasil continuasse ganhando aos trancos e barrancos, tudo estaria bem. Os problemas seriam varridos pra debaixo da grama da Granja Comary. Mas Felipão os mandou pro inferno. E os problemas apareceram.

Não sei o que se passa em outros países. Se a imprensa se torna parte da engrenagem ou apenas relata o que vê, seja de bom ou ruim.

Aqui depende.