Meu Amigo Tricolor

Felipe é tricolor. Essa é talvez a melhor definição desse meu amigo e vizinho. Bisneto de um tal Barão de Itapacorá, que segundo ele foi agraciado com tal título nobiliárquico pelo próprio Imperador D. Pedro II, é o único cara que conheço na face da Terra que toma um Martini em pleno verão carioca na piscina do nosso prédio, enquanto todos os demais vizinhos ficam na cerveja gelada.

Possui uma fidalguia e uma altivez dignas de uma espécie de “lorde dos trópicos”, apesar de sua tez morena bem típica de nossa mistura brasileira. Dificilmente sai do sério ou discute em tom mais ríspido quando o assunto é o seu Fluminense. Culto acima da média, passou boa parte de sua vida na Suíça, num local, segundo ele, de muito significado para os tricolores (Lausanne – cidade onde se localiza a sede do COI, que em 1949 agraciou o tricolor com a Taça Olímpica). Só sai do sério quando a conversa descamba para os supostos favorecimentos para as ascensões à primeira divisão ou as supostas manobras jurídicas para os não descensos às divisões inferiores do nosso futebol.

Adora dizer: “Nós somos a história!” E o diz com uma naturalidade de quem conhece (e muito!) a história de nosso futebol carioca. Cita de Oscar Cox a Romerito, de Marcos Carneiro de Mendonça a Assis e Washington, com a mesma naturalidade como estivesse citando algumas das grandes personalidades da História mundial. Diz que o Fluminense é o pai de todos os clubes cariocas e que sem o Flu, hoje, estaríamos acompanhando regatas na Lagoa…

Por conta de sua refinada educação, nossas conversas sobre futebol sempre fluem muito bem e no último fim de semana, estávamos relembrando os anos 80, em que a freguesia atual a favor do Vasco, pendia para o lado tricolor.

Falamos do atacante Washington que faleceu há pouco tempo e eu afirmei que se Assis era o Carrasco do Flamengo, Washington era o carrasco do Vasco… Como esse cara gostava de fazer gols na gente!

Lembrei-me de um certo jogo do Campeonato Carioca de 1987, em que o Vasco tinha atacado de tudo quanto é forma, perdido um “caminhão” de gols, mas no fim do primeiro tempo, após uma joga isolada… uma bate-rebate na área e o Flu saiu com a vantagem.

Veio o segundo tempo e o quadro não mudou: ataque do Vasco (com Mauricinho, Roberto Dinamite, Tita, etc…) contra defesa do Fluminense. E aí veio acontecer um dos gols mais bonitos que vi no Maracanã. Washington recebe um lançamento, dribla o zagueiro Donato num “semi-chapéu”, um corte seco em Moroni, mais dois dribles em que ele colocou o goleiro Acácio caído nas duas vezes, e o toque para o gol desguarnecido. Que golaço!

Felipe fala desse jogo com carinho e, porque não dizer, com saudades de um tempo em que eles ganhavam mais da gente do que hoje…

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Dia seguinte à publicação da coluna na semana passada, recebo um “torpedo” do Robertinho. Aquele meu amigo vascaíno “doente” que citei nesta história. Entre parabéns pela coluna e boas lembranças de nosso tempo na faculdade, ele me manda a seguinte pergunta: “E aí…? Já comprou a camisa do Vascão para usar durante a Copa?”

A princípio, não entendi bem a pergunta, afinal desde aquele tempo (modéstia à parte…) tenho uma vasta coleção de camisas do Vasco. Respondi: “Não comprei nenhuma camisa nova do Vasco só para a Copa… Você se refere àquela que lançaram agora que é dupla face?”

Ele respondeu: “Não! Essa é horrível! Eu refiro-me àquela que os jogadores da Seleção vão usar.”

Aí é que eu não entendi nada! Ele deve ter percebido o meu silêncio e em seguida me enviou uma foto com o atual escudo da Seleção Brasileira. Foi então que eu notei…

E vocês? Já notaram porque todos os jogadores da Seleção Brasileira jogam (desde de 1916 com um breve período de recesso entre 1981 e 1991) com a camisa do Vasco?

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E hoje começa a Copa do Mundo. E ela será no Brasil Algo que provavelmente a maioria de nós não verá novamente.

Não. Eu não torcerei contra o Brasil por conta dos desmandos que supostamente foram cometidos para a realização da Copa aqui.

Uma derrota ou uma vitória da Copa a meu ver deveria ficar apenas nos limites esportivos. Sim, eu sei… Provavelmente alguns políticos se aproveitarão de um possível triunfo para justificar os meios. Algo como “roubamos, mas valeu a pena”. Sim, eu sei… Num possível fracasso, outro grupo de políticos vai tentar incutir na cabeça do nosso povo que a derrota é só mais um sintoma de tudo que está errado no nosso país. Algo como “país está tão ruim que até a Copa perdemos”.

Mas e aí? Você que como eu sabe que devemos exercer nossa cidadania independentemente de qualquer evento esportivo ou cultural, vai fazer o que? Torcer contra em nome de uma falsa impressão que a derrota irá nos beneficiar?

Não meu caro leitor… O resultado da Copa, seja ele qual for, irá influenciar negativamente o nosso panorama político não por conta disso, mas sim por conta da falta de escrúpulos dos políticos que nós mesmos colocamos lá.

Tenhamos pois a consciência de separar as coisas. Torçamos e muito que o Brasil vença dentro e fora de campo.

Eu me juntarei ao meu amigo Felipe e gritaremos a todo vapor (ele de uma maneira mais educada… rsrs): “O FRED VAI TE PEGAR! O FRED VAI TE PEGAR!”

BRASIL!