Meu amigo flamenguista

Logo que me mudei do Méier para Copacabana, no início dos anos 80, quando iniciava a minha adolescência (tinha 13 anos na época), o primeiro amigo que tive foi o Luiz.

Típico carioca da zona sul, onde vivia desde que nasceu, tem a mesma idade que a minha. Seu pai, já falecido, era tricolor e teve o desgosto de ver o filho passar a torcer pelo maior rival quando em um Fla x Flu ele ao perceber que a festa se dava nas arquibancadas em frente, não teve dúvidas para qual time torcer.

E apesar de origens diferentes, aos poucos fomos descobrindo que nossas afinidades e preferências eram quase sempre as mesmas. Desde a maneira de nos vestirmos ao tipo de meninas que gostávamos de “azarar”. Passando pela disputa meio idiota de uma época de autoafirmação juvenil sobre quem era o mais popular, ou o cara que se destacava no grupo de meninos que formavam a nossa turma na saudosa Rua Duvivier. Jogávamos na mesma posição nas “peladas” sobre as areias da praia de Copacabana e por conta disso, apesar da grande amizade que nutríamos um pelo outro, era muito comum jogarmos em times opostos.

Por conta desses fatos e com o passar do tempo, desenvolvemos uma rivalidade. Mas note bem: eu disse rivalidade e não inimizade. Apesar de tudo, vivíamos grudados. Raramente havia programa de fim de semana que não aproveitávamos juntos. Era uma rivalidade sadia. Aquela que te motiva a mais que desafiar o seu rival, a desafiar a si próprio. Ganhar dele era o céu. Perder, no entanto, era um inferno!

E o auge dessa rivalidade era a nossa preferência futebolística: eu sou vascaíno e ele é flamenguista.

Aliás, ele é o flamenguista típico! Megalomaníaco ao extremo sobre tudo que se refere ao seu time. Se o Flamengo vence a Taça Guanabara, vale como se fosse um título do sistema solar! Se não for o rubro-negro o campeão, não passou de um turno do campeonatozinho chinfrim do Rio de Janeiro. Não há santo que o convença que o Flamengo não é hexacampeão brasileiro, ou de que eles não ganharam o campeonato brasileiro de 1987. Muito menos aceita que em 1981 eles ganharam um título importantíssimo, mas que está longe de ser um “mundial”. Adora dizer que a maior torcida do mundo (sic) faz a diferença.

Zico? Um Deus! Maior que Pelé! Tanto quanto o atual “Brocador”… A falta de coerência nas coisas relativas ao seu time é irritante, mas é algo que me desafia, confesso.

Tem absoluta certeza de que essa história de preferência da mídia ou de favorecimento por parte das arbitragens não passa de inveja dos rivais cariocas com os “milhões de títulos do mengão”, como ele gosta de falar.

Desde os anos 80 é assim: o Vasco ganha do Flamengo? Ele some, pois sabe que eu vou procurá-lo para além de obviamente sacaneá-lo, colocar mais um ponto a meu favor daquela nossa velha rivalidade sem a necessidade de se falar sobre isso. Se o contrário acontece, é ele quem me procura e sou eu que sumo.

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Depois de várias ligações após cada rodada do atual campeonato brasileiro em que eu “deitei e rolei” com o meu amigo por conta da situação calamitosa do Flamengo, no domingo em que o Fla ganhou do Botafogo, logo após jogo ele me liga ainda Maracanã…

– Faaaaallla ô segunda divisão! Viu aí? Não adianta secar!

– Fala Luiz! Tu tá no Maraca? Porra, que jogo ruim, hein?

– Ruim?!? Porra nós ganhamos! Aqui é Flamengo! Não tem essa porra de segunda divisão não!!!

– Sei… Olha… Ainda faltam alguns pontos para os tais 45 que livram do rebaixamento…

– Que mané 45 pontos!?!? Nós já estamos fazendo contas para ver quanto falta para chegarmos ao hepta!!!

Nesse momento, desliguei o telefone porque o meu ouvido não é penico.

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Confesso que fiquei satisfeito com o adiamento da eleição no Vasco. Há muitas irregularidades que precisam ser apuradas.

Que se aproveite esse tempo até novembro para que nós vascaínos possamos com calma avaliar as melhores alternativas para nos conduzir para fora do atoleiro em que nos encontramos desde o início desse século!