Meu amigo botafoguense

Tem jogo importante do Botafogo? Já sei de antemão que um pouco antes do início da partida o meu telefone irá tocar… Do outro lado da linha, meu amigo Zequinha que, como todo botafoguense, é supersticioso ao extremo! Segundo sua teoria maluca (dentre inúmeras outras), toda vez que ele fala comigo antes de jogos decisivos do Botafogo, o alvinegro ganha…

Loucuras à parte, Zequinha é um carioca típico. Filho de servidores públicos federais, do tempo em que a capital brasileira ainda era no Rio de Janeiro, ele se tornou um grande amigo durante os anos em que vivi em Copacabana, bairro onde mora até hoje. Meio avoado, cabelos desgrenhados desde sempre e um pessimismo patológico em relação ao seu time são suas características mais marcantes.

Nilton Santos é uma espécie de Deus para ele! Discute com qualquer um que insinue ter sido Pelé melhor que Garrincha. Nutre pelo time rubro-negro da Gávea um ódio visceral… Talvez até maior do que nós vascaínos nutrimos! Para ele o Flamengo é freguês e pronto, ainda que as estatísticas digam o contrário! Adora tirar sarro comigo dizendo que, quando o jogo vale um “brilhareco” qualquer, o Botafogo ganha do Vasco. Diz que sua torcida é infinitamente maior (sic) que a do rival mais antigo, o Fluminense.

No seu raciocínio muito peculiar, diz que derrotas são mais importantes que vitórias, pois é no sofrimento que nasce a verdadeira fidelidade. Torcer para quem sempre ganha é mole, diz ele… Quero ver manter-se fiel com tantos reveses!

Ah! E sabem como surgiu essa história de ele me ligar antes de jogos decisivos do Botafogo? Em 1989, antes da histórica decisão do campeonato carioca daquele ano, pouco antes de partir para o Maracanã, Zequinha me liga…

– E aí Zequinha…? Confiante?

– Não! Porra… Como é que a gente faz para ganhar das “forças do mal”? Vocês vascaínos sabem bem como fazer isso… (naquela época, pelo menos, sabíamos mesmo…)

– Relaxa Zequinha! Olha só: vou torcer pelo “fogão” e vai ser um a zero, gol do Maurício!

– Deus te ouça amigo! Tô nervoso pacas, mas vamos lá… Torça por nós!

– Boa sorte!

Uns 5 ou 6 dias depois, ele me liga ainda rouco por conta do jogo.

– A partir de hoje, eu te ligarei todas as vezes que o “fogão” for jogar alguma coisa importante! E tem mais: comprei uma camisa do Maurício para você!

E assim tem sido há 25 anos… A camisa? Nunca a usei, mas guardo com carinho até hoje…

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Primeiro de uma série de três jogos contra a Ponte Preta e o Vasco conseguiu uma ótima vitória. Definitivamente a parada para a Copa do Mundo e as últimas contratações fizeram bem ao time. Com a volta do zagueiro Rodrigo, acho que o time tem tudo para voltar à elite sem muitos sustos.

Controlamos bem o jogo e mantivemos a posse de bola como manda o atual futebol “moderno”. Menos erros de passes e viradas de jogo com muita consciência.

Enfim, uma vitória que encaminha bem nossa classificação para a próxima fase da Copa do Brasil e nos deixa mais focados para melhorar nossa posição na tabela da série B.

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Na minha infância, por conta de um amigo de meu pai que fazia na época um doutorado na UNICAMP, passamos alguns dias em Campinas. Nessa oportunidade, conheci as instalações da Ponte Preta e o bonito estádio Moisés Lucarelli – o “Majestoso” como os pontepretanos o chamam.

Era comum nesses dias de férias irmos para o clube, na parte social da Ponte Preta, onde aproveitávamos as piscinas e as quadras para bater uma bolinha. E numa dessas idas, presenciei algo bastante inusitado…

Quem já jogou bola em algum clube daqui do Rio sabe que é proibida a utilização de camisas de quaisquer outros times, principalmente dos rivais cariocas (nas Laranjeiras nem de clubes internacionais é permitido!).

Nesse dia, estávamos entrando no clube quando percebi certa confusão causada por conta de um visitante que tentava entrar com a camisa do São Paulo. Foi barrado apesar de todas suas argumentações. No meio da discussão o segurança disse o seguinte:

– Aqui não se pode entrar com camisa de clube nenhum que não seja Ponte Preta ou Vasco da Gama!

Não sei se foi por causa de alguma suposta paixão do segurança pelo Vasco, por conta da semelhança de nossas camisas, ou por qualquer outro motivo…