Ladainha e desequilíbrio

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Todo ano do século XXI, o nobre leitor abre os jornais em janeiro, ávido para ver jogos do seu time de coração (ou do futebol em geral).

A televisão Globo, cada vez mais caricata (no futebol e em todos os aspectos), faz uma propaganda do campeonato carioca com trilha musical parecida às das veiculações da Liga dos Campeões da Europa.

Fala-se de tradição (justo), charme (justo) e da inigualável torcida local (justíssimo, quando ela comparece ou pode comparecer).

Entende-se a promoção intensa da competição por questões comerciais. É de quem lucra.

O estranho é que não se invista nesse produto de modo a estruturá-lo, pelo menos a ponto de lembrar as brilhantes caravanas do passado – ninguém por aqui falava em Brasileiro e nem se via Libertadores: Maracanã era 100 mil pessoas por baixo nos anos 50, 60, 70 e 80.

Draft das equipes, fortalecimento dos times de melhor investimento, condições dos estádios. Tudo solenemente ignorado.

A uma semana do início do Carioca 2015, segundo a gloriosa Ferj de Rubinho, apenas Maracanã, São Januário, Moacyrzão, em Macaé, e Los Lários, em Xerém, são estádios que apresentaram os laudos necessários para abrigar jogos com torcedores.

Até o momento, vetados Engenhão, Correão (Cabofriense), Conselheiro Galvão (Madureira), Eduardo Guinle (Friburguense), Eucyr Resende (Boavista), Jânio Moraes, o Laranjão (Nova Iguaçu), Leônidas da Silva (Bonsucesso), Leão do Sul (Barra Mansa), Moça Bonita (Bangu), Raulino de Oliveira (Volta Redonda) e Estádio do Trabalhador (Resende).

Dado ser um problema crônico envolvendo times que disputam o campeonato, algumas reflexões.

A primeira: em até que ponto a impossibilidade de atuação das equipes na condição de mandantes altera o equilíbrio da disputa?

Resposta: Ponto altíssimo, lógico.

A segunda: em até que ponto os interesses da televisão Globo coincidem com os velhos problemas de estádios interditados? E pior: na manutenção permanente dos problemas que os interditam?

Resposta: Um caso sério a se pensar, pois.

A terceira: como querem fazer do campeonato um sucesso de plateia presente contando eventualmente com apenas quatro estádios, sendo um a mais de três horas da capital e outro fora dela, ambos com capacidade limitada de público?

Resposta: SI (solução impossível). 

A mesma velha ladainha, o mesmo (velho/novo) desequilíbrio, uma conversa para boi dormir até que os quatro grandes cheguem aos momentos decisivos e, no final, a título de curiosidade, pequena amostra de saldo das últimas quinze temporadas:

CRF: 2000, 2001, 2004, 2007, 2008, 2009, 2011, 2014 = 8

Botafogo: 2006, 2010, 2013 = 3

Fluminense: 2002, 2005, 2012 = 3

Vasco = 2003 = 1

Ao se falar de tradição, nota-se que os dados acima fogem bastante ao convencional em termos de história dos campeonatos do Rio de Janeiro. Ou de qualquer outro cenário de grandes estados brasileiros que tenham ao menos três equipes de ponta.

Eventuais contestações são bem vindas, assim como as arbitragens, digamos, “marcantes”.

Globo, a gente não se vê por aqui.

@pauloandel