A Justiça através da dor

A vexatória derrota da seleção brasileira na última terça-feira encerra, enfim, um ciclo de achincalhamento e desprezo a uma das maiores seleções brasileiras de todos os tempos. Em especial, a um goleiro – Barbosa – tratado como décadas como vilão daquela fatídica, porém acidental, derrota para a seleção uruguaia em pleno Maracanã, em 1950. Barbosa, que por décadas fora assim presunçosamente considerado pela parte podre da crônica esportiva, enfim pode descansar em paz.

Aquela seleção de 1950, ao contrário da campanha arrastada, enfadonha da seleção brasileira atual, goleou a todos. Campeã um ano antes de Copa América realizada também no Brasil, fez uma campanha digna, irrepreensível, que só não culminou com o título porque esse esporte, ao contrário do basquete e do vôlei, chama-se futebol, em que nem sempre o melhor vence e, por essa razão, torna-se tão apaixonante. A seleção de 1950 não somente colocou o Brasil na rota do cenário mundial do futebol, como também representava a verdadeira face do povo brasileiro, ao contrário da atual. Jogadores negros, pessoas menos favorecidas financeiramente, salários compatíveis com o padrão dos “trabalhadores do Brasil” – frase essa na história marcada pelos discursos do Presidente Getúlio Vargas.

Havia espaço para todos, inclusive para os torcedores de arquibancada e geral, ao contrário da elitização do mesmo esporte e da execração do mesmo torcedor dos estádios. Esse mesmo torcedor execrado hoje, que por anos renegou a grande seleção de 1950 e que infelizmente, não pelo amor, mas pela dor, conheceu finalmente o que é a palavra vexame. Esses mesmos comandantes dessa seleção brasileira com raízes totalmente descaracterizadas do que é a verdadeira face do povo brasileiro puderam provar do que se trata o verdadeiro fracasso. Lembrem, por exemplo, de Parreira, o mesmo técnico campeão do mundo em 1994 mas fracassado em outras seleções – inclusive a brasileira em 2006 e na atual, que proibiu a Barbosa, quando em vida, de visitar seus comandados, no ano do tetracampeonato. Muitos o apoiaram na época, pois até então ele, Barbosa, era o estigma do fracasso. Hoje, podemos ter ORGULHO de tê-lo tido como goleiro, não só por conta de sua qualidade indiscutível, mas por ter sido representante de uma classe racial que, ainda hoje, é vista com certo preconceito por parte de muitas pessoas pelo mundo todo.

E não é a toa que boa parte da mesma imprensa que, no mínimo, nada fez de mais forte para combater o “rótulo” até às 16 horas da última terça-feira, agora, fazem questão de exaltar o feito daquela seleção e reconhecendo, mesmo que tardiamente, seu valor para com aquele resultado alcançado, outrora desprezado, hoje contudo, exaltado. TODOS os heróis daquele time responsável por colocar o Brasil no hall das grandes disputas, TODOS SEM EXCEÇÃO, merecem muito esse tardio, porém JUSTO reconhecimento. Ainda que por “linhas tortas”, tal como muitos dizem que é dessa forma que DEUS escreve, mas que serviu como correção de uma injustiça histórica.