Inútil paisagem

maracanã vazio

Estamos perdidos. Totalmente perdidos. Eu, você, nós, vós, vascaínos, tricolores, alvinegros e gavistas. Nem todos percebem, há os que até comemoram.

Não fossem as patéticas manobras dos bastidores, mais a discussão sobre o lado da arquibancada (pessimamente conduzido desde o começo) e notinhas irônicas, ninguém levaria o Carioca 2015 a sério – melhor dizendo: ele não seria sequer comentado, porque a sério já não é levado há muito tempo. Virou uma pré-temporada de luxo, com direito a se comemorar alguma coisa – ou terminar com muita raiva por causa de um erro decisivo da arbitragem.

Há mais de vinte anos, conta-se nos dedos de uma das mãos as finais realmente empolgantes e que não sofreram intervenção de gatunagens.

Noutros tempos? Falar de Roberto contra Edinho, Orlando Lelé pregando Tita, Mazzaropi voando baixo, Mendonça comendo a bola. Paulo Cézar Caju. Zanata, monstruoso. E o Catinha? As grandes preliminares, a festa das torcidas, o Rio retumbando, o Brasil todo invejando as imagens do Canal 100. A dureza de se jogar na Bariri, em Ítalo Del Cima, até na Figueira de Melo – o Luso-Brasileiro na Ilha do Governador. Os pequenos eram pequenos, mas não sparrings.

Um desfecho dramático para aquele que já foi o campeonato mais importante do país, superior ao Brasileiro e às competições internacionais. O campeonato dos clássicos de 130 mil pessoas, que enchia os paulistanos de inveja, no tempo em que jogar no Maracanã era motivo de orgulho.

Discutir se o ingresso deve ser mais barato ou não é pouco. Claro que deveria. Mas quem quer pagar para ver porcarias às quartas e domingos? Ninguém se interessa por porcarias baratas, a vantagem é ter um bom produto a preço baixo.

Enquanto os grandes se digladiam nas manchetes e falácias, de modo silencioso a Globo venceu: quanto menos gente no estádio, inegavelmente o share aumenta. Se não tiver ninguém, melhor ainda.

E o campeonato carioca agoniza.

Sangra lentamente, conduzido pelo herdeiro de Caixa D’Água que não conseguiu sequer administrar o clube de seu coração – o Bangu.

Novamente a Globo, com seu cinismo imparcial anuncia: “A diferença está na torcida”.

QUE torcida? A do sofá?

O Maracanã reabriu há um ano e meio. Nenhum clássico ficou completamente lotado, nem mesmo a final tungada com o impedimento no último minuto.

O futebol não existe sem o outro.

Para o alto profissionalismo, é preciso que haja igualdade de forças em alto nível.

QUE nível?

Um rame-rame até os quatro se classificarem para a final. Depois, se Deus ajudar, nenhum árbitro desgraçado a destruir o futebol.

E depois vão dizer que o que importa é o Brasileiro. Mais tarde, o que importa é a vaga na Libertadores. Ih, não, agora o importante é não cair.

O Rio de Janeiro hoje tem menos times do que Santa Catarina na série A, com todo respeito aos sulistas.

Isso pode significar tudo, menos que o profissionalismo esteja aqui nesta terra de mulheres e beleza geográfica indescritível, certo sabor de verão, um clima de despojamento e arquibancadas… vazias.

Vazias.

O Carnaval está chegando.

O último a sair, favor apagar a luz da Federação.

@pauloandel