A imprensa esportiva esquizofrênica

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Ontem, a coletiva de Neymar causou comoção. Não há duvidas da maturidade do jovem jogador, muito ponderado em suas colocações. Mas se você só refletir por meio de jornais e programas de TV, terá a impressão de que ele fez uma Copa perfeita, deu todos os passes e foi infalível, o que é uma mentira grosseira. A estúpida joelhada que recebeu de Zuniga foi o álibi perfeito para suas atuações opacas contra Chile e Colômbia (antes de ser quebrado, claro).

Deixo claro: Neymar é um dos grandes jogadores da atualidade e oxalá venha a ser o melhor do mundo um dia. Tem tudo para isso, desde que passe a jogar coletivamente. Essa, hoje, é ainda a grande distância dele para Messi, por exemplo.

Curioso, mas nem tanto, foi o uso dessa mesma coletiva para que naturalmente se desancasse internet e jornais afora os nomes de Luiz Felipe Scolari, Carlos Alberto Parreira, a cúpula da CBF e o raio que o parta. Berros de jornalistas, acusações de incompetência, afirmações de envolvimento com a ditadura 64, vociferações, tudo o que se pode imaginar para uma “verdadeira revolução no futebol brasileiro”.

O comando político da CBF é abominável, lógico.

Mas convém o bom senso de separar o joio do trigo. E quando não foi? Mesmo alguns dos melhores nomes do passado no mínimo foram marcados pelo contraditório.

Ok, ninguém pode achar normal a maneira como a Seleção foi trucidada pela Alemanha. Depois do segundo gol, faltou um veterano em campo que esfriasse a coisa. Deu no que deu.

Não morro de amores por Scolari. Nunca morri. Não gostava de suas instruções para quebrar jogadores, o jeito chucro nas declarações e outras coisas. Há muito tempo não vinha de boas jornadas. Mas justiça seja feita: tem currículo, é vitorioso e iniciou a atual jornada depois que Mano Menezes fracassou nos Jogos Olímpicos. Ali em 2012, era o renascimento do mito da Família campeã em 2002 vencendo todos os jogos. A grande imprensa apoiou. Na jornada anterior, pegou o Brasil em frangalhos nas eliminatórias e chegou ao penta. É o treinador com mais vitórias em Copas do Mundo na história da Seleção Brasileira. E ainda levou o eterno azarão Portugal ao terceiro lugar de 2006. Não morro de amores por ele, mas não me permito ser idiota a ponto de renegar sua carreira.

Veio a Copa das Confederações, o Brasil emplacou, foi campeão, diziam de uma Família II.

Então a Seleção começou a Copa 2014 com dificuldades, assim como outras seleções, e se classificou. Todos diziam que o Chile seria dos adversários mais difíceis de se enfrentar na Copa. E foi mesmo.

A Colômbia vinha jogando o fino com o craque James Rodríguez. Barra pesada. Diziam que não ia dar. Fizemos nossa melhor partida e passamos. Estávamos longe do brilho, mas parecia que decolaríamos.

Então veio a Alemanha e nos fuzilou piedosa e merecidamente em dez minutos. Fez conosco o que não tinha conseguido contra Gana, Argélia, Estados Unidos e França. Goleou Portugal na estreia, o que não dá cartaz a ninguém.

Longe de tirar o mérito do colossal talento alemão, inquestionável, quero apenas dizer que os 7 x 1 foram atípicos até mesmo para quem tem oito anos de planejamento, tempo de Joachim Low à frente da esquadra germânica – terá doze com a renovação já feita antes da final. Eles se surpreenderam de verdade com o que aconteceu. Sóbrios, sabem que isso jamais se repetirá novamente.

Scolari errou bastante nesta Copa  – desde antes, aliás – e ajudou a fornecer dados para a tragédia do Mineirão. Mas se tivesse perdido por 1 x 0, também seria escorraçado – no caso, a histórica goleada é apenas um agravante. Parte da imprensa esportiva do Brasil é conduzida por um marco de seus patrões: a derrota (ou perda econômica) é inaceitável. Perdeu, masmorra. Medieval mesmo. Preparem as guilhotinas.

Pausa para Parreira. Um dos únicos brasileiros bicampeões mundiais no futebol brasileiro (1970/1994), é o recordista de comando de seleções nas Copas. Campeão no Brasil por Fluminense, Inter e Corinthians. Um dos mais experientes profissionais vivos da história das Copas do Mundo. Virou um “ultrapassado que serviu à ditadura”, e haja ridículo para tornar esta sentença algo sério. Mas todos os que serviram à Seleção Brasileira entre 1966 e 1982 estiveram perto – involuntariamente ou não – daquele abominável momento político, salvo honrosas exceções como João Saldanha, Paulo Cezar Caju e Sócrates, sempre marcando posição. E o resto, é lixo? Jogamos então fora a Copa de 1970 porque foi vencida na Era Médici?

Agora, todos saúdam o trabalho feito na seleção alemã – este, com toda justiça -, mas também pontas firmes de oportunismo e dissimulação. Joachim Low tem a sorte de ser alemão. Jamais conseguiria trabalhar na Seleção Brasileira por oito anos sem conquistar títulos, esperando por um longo prazo até os frutos. Ao primeiro ano e meio, o primeiro fracasso e seria tachado de incapaz, fraco, ultrapassado ou essas novas besteiras como “perdeu o vestiário”.

Chega a ser fácil prever a opinião jornalística predominante, caso o excelente trabalho do treinador alemão fique pelo caminho diante de genialidade de dez minutos de um Messi, por exemplo, hipótese plausível no próximo domingo.

E também fácil uma conclusão: a renovação do futebol brasileiro, tão ansiada e necessária, não pode ter como base os arroubos de uma imprensa esportiva esquizofrênica, oportunista, covarde e hipócrita – ela exige o que é incapaz de praticar. Liste o nome dos grandes formadores de opinião do ramo: estão aí desde os tempos de Médici; crucificaram Zagalo, Telê, Lazaroni; apedrejaram Evaristo com SEIS jogos em 1985. Cláudio Coutinho – militar nos tempos da ditadura e também campeão em 1970 -, falecido precocemente após um terrível acidente submarino, escapou do linchamento. Ah, e vários senhores da verdade jornalística trabalharam para veículos de comunicação ligados à ditadura em um ou vários momentos. Nada como o vil metal a dobrar convicções e desnudar hipocrisia, sempre ela.

O sucessor de Luiz Felipe já tem pesadelos ao se esquivar das pedradas.

@pauloandel