Holanda sweet Holanda

holanda 74 Dificilmente um sujeito que tenha mais de quarenta e cinco anos de idade, sendo um fanático por futebol brasileiro e internacional, deixará de mostrar respeito ao futebol holandês.

Quando garoto, eu ouvia falar de Cruijff, Resenbrink, Neeskens, Rudi Krol, Johnny Rep, o goleiro Jongbloed (que não usava luvas). E do Ajax, com sua linda camisa. Mais tarde, pude ver as partidas destes jogadores, o que fizeram com o Brasil em 1974, a seguir o time de 1978. Os irmãos Van der Kherkof, Suurbier, Rijsbergen. Eram os contestadores anos 70 em parte da Europa, em contrapartida às ditaduras que dominavam a América Latina.

Provavelmente, quem viu os primeiros jogos do Ajax campeão da Europa e do time que seria eternizado como a Laranja Mecânica aka Rinus Michels, deve ter pensado que era coisa de maluco. E era mesmo: o lateral direito ia para o meio da área concluir, o ponta esquerda voltava para marcar no miolo da defesa, só faltava o meia vir para o gol.  Craques malucos, solidários, que trocavam de lugar o tempo inteiro, giravam, tabelavam, ninguém sabia marcá-los. E foi assim que, em pouquíssimo tempo, a Holanda passou a ser respeitada no mundo do futebol – algo parecido com aquele time em campo, só se você escutar “Free Jazz”, o emblemático disco de Ornette Coleman em 1959 que revolucionou o gênero.

Com toda a  força, ainda assim perdeu a final do Mundial de 1974 para a anfitriã Alemanha de Beckembauer, Gerd Muller e Paul Breitner, o que atesta o alto nível da época. E perdeu a final de 1978 para a Argentina numa Copa onde nem Pelé, Garrincha, Puskas e Di Stefano juntos num mesmo onze conseguiriam derrotar o time da casa, por motivos já sabidos.

Então vaticinaram: “A Holanda já era”. Não vai ter reposição, não vai firmar.

holanda 1988 Demorou um tempo, mais de dez anos, duas ausências da Copa, até que a turma de Koeman, Rijzkaard, Gullit e o espetacular Van Basten tomou a Europa para si: tirou a forra dos alemães, vencendo-os em casa e depois derrubando a forte União Soviética da época. Agora ia de vez na Copa.

Não foi: em 1990, no mesmo dia em que o Brasil deu adeus à competição na jogada genial de Maradona, a Laranja caiu diante da Alemanha, a futura campeã. A geração ainda encarou o Brasil de Romário e Branco, e aí nós é que fomos à forra: 3 x 2 em 1994 e a batalha dos pênaltis em 1998.

Em 2010, Sneijder acabou conosco e continuamos a procurar os culpados de sempre; nós não sabemos errar, não podemos admitir que os outros sejam melhores numa ocasião. A Laranja foi até o fim, mas aí a Espanha, herdeira efêmera de um monumental Barcelona, estreou na galeria das seleções campeãs. robben sneidjer Um novo sonho estava em aberto até poucas horas atrás. Não havia mais um Neeskens, um Rep. Cruijff, ninguém tem. Mas o bom time holandês fez partidas bonitas, mostrou força, mas tinha uma Argentina de garra e luta pela frente. Não deu mais uma vez.

O curioso disso tudo é que a Holanda é a mais respeitada escola de futebol do mundo entre os países que ainda não ganharam a Copa – aliás, sua trajetória é bem mais consistente nestas quatro últimas décadas do que as campeãs Espanha, Uruguai e Inglaterra.

Talvez seja um irônico deboche do tipo: “Para sermos gigantes, não precisamos sequer de títulos”.

Um dia terá e, quando chegar essa hora, ficará claro que a seleção holandesa já era muito maior do que a Taça Fifa que venha a ter às mãos. Alguém aqui poderá traçar paralelos com o mais novo rancoroso da praça, Zico, e rirei: é diferente, pois a Holanda disputou títulos, não pagou de figurante.

À nossa frente neste sábado em Brasília, a Laranja (ou azul) que já nos atordoou, encanta e vai ser um osso duro de roer. Ao contrário do que pensamos coletivamente, para eles o terceiro lugar é muito importante. Do outro lado, o nosso time desmantelado por conta da goleada de 7 x 1 aplicada pela Alemanha e mais ainda: a verdadeira execração da Seleção num pais onde ser segundo lugar é ser último e o passado de vitórias é jogado no lixo após o primeiro insucesso. Alguns não entendem e acham que tentar ver o conjunto da obra é passar a mão na cabeça da Seleção. Um reducionismo patético. Se perdermos a disputa do terceiro lugar, poucos vão reconhecer o talento de Robben e Sneidjer, a força de Kuyt.

Estamos em 2014, mas o baile de 1974 ainda vive. Para alguns.

Bem dizia meu mestre Ivan Lessa: “A cada quinze anos, o brasileiro esquece o que se passou nos últimos quinze anos”.

É por aí.

@pauloandel