Hoje

brasil 1958 bandeira

Algum garoto que chorou copiosamente naquele 16 de julho de 1950 está em algum lugar dessa cidade ou país – Helio, meu querido e saudoso pai, tinha nove anos de idade e jamais conversou comigo sobre o assunto.  Pode ser um avô com uma família feliz, realizado por ter ainda coisas a fazer, ou um senhor sofrido que viveu o bem e o mal. Pode ser qualquer um. Quantos garotos não choraram dentro do Maracanã e perto dos rádios naquele dia da final da Copa do Mundo?

O Brasil era um outro Brasil. Depois de idas e vindas, Getúlio Vargas tinha voltado ao poder pela via eleitoral, não teria vida fácil e muitas águas ainda iriam rolar pelos caminhos. Oito anos depois da inesquecível derrota no Maracanã, Vargas morto, Juscelino vivo, o Brasil ganhava de vez o mundo do futebol com um timaço inesquecível, primeira das cinco conquistas que fizeram daqui o país maior do esporte mais apaixonante do mundo. Parecia que ia dar certo de vez: deixávamos tempo de certa doçura para a rijeza da industrialização. Os carros, as estradas, Brasília, a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Concretismo, o TBC. Lá veio outro Brasil descendo a ladeira para gingar no asfalto. No Chile, a certeza de que o mundo era nosso.

Vieram a ditadura, o autoritarismo, a mentalidade medieval, o individualismo pleno, mas nada disso serviu de obstáculo ao supertime de 1970, vencedor definitivo da Taça Jules Rimet com toda justiça. Depois, um longo hiato, tanto para a terra brasilis quanto para a camisa amarela.

A redenção de 1994 em campo tirou o peso das costas de 24 anos sem conquistas. Romário foi o rei. Aos poucos, o país deixava a infância de sua democracia para trás, depois dos anos de chumbo. Perdemos 1998, ganhamos 2002, o pentacampeonato tornou-se uma realidade, o Brasil começou sua longa travessia, com erros e acertos, até os dias atuais.

Os estádios da Copa do Mundo não terão o público bastante popular de 1950, que ficará de olho vivo nas telas dos novos televisores de última geração. As ruas apinhadas de gente, cada um com seus celulares e câmeras, muitas imagens e vídeos, ângulos, cores. Agora somos outros. Há 64 anos, éramos dúvida, principalmente depois da trágica final; hoje, somos uma realidade irrefutável. Um Brasil de problemas, sonhos, angústias, crenças, com muito a ser feito e com obras em progresso. O Brasil do campo é eterno favorito a tudo o que venha disputar, mesmo quando acontece uma entressafra de craques.

Agora somos outros.

Este tem sido um país de dores e problemas. A corrupção da sociedade – principalmente ela – por vezes entorpece o jogo político, financiada por interesses elitistas sempre atentos à necessidade de servilismo. Poderosos grupos detêm os meios de comunicação e quase impõem uma verdade virtual que não se vê no mundo físico. Mas também é um país de muita gente solidária, trabalhadora, humilde e capaz de dividir o único pedaço de pão que tem em casa. Há muitos Brasis dentro de um só.

Hoje, todos eles de alguma forma dão as mãos ou, ao menos, sentam-se de forma urbana lado a lado numa arquibancada imaginária. É que por um mês seremos os anfitriões do mundo. Todos os corações baterão olhando para as nossas ruas, as nossas cores e os nossos campos. Também teremos justas e merecidas manifestações populares reivindicando melhorias, o que não deve ser confundido com oportunismos partidários visando as eleições nacionais de outubro que vem.

Foi o futebol que lançou o Brasil aos olhos da Terra em 1958; agora, tantos anos depois, tanto esforço de tanta gente que já se foi – tamanha injustiça não termos agora um Nelson Rodrigues e um João Saldanha escrevendo nos jornais -, e somos novamente os donos da bola. Não que isto significa ganhar a Copa do Mundo, longe disso, mas a sensação de estar em casa é muito especial.

Noutra crônica, falei a respeito do meu encantamento em pisar no papel picado em Copacabana durante o intervalo de Brasil x Argentina pela Copa de 1978, quando era criança. Logo mais, neste enorme continente, muitos outros garotos vão cantar, sonhar, dançar, se divertir e prestar atenção a esse negócio inexplicavelmente mágico que é ver um jogo de futebol.

Hoje começa a Copa do Mundo do Brasil. A outra.

Em memória daqueles que choraram – e depois riram – no distante passado, em vitalidade dos que, logo mais, vão gritar a plenos pulmões pelo Brasil ou Brasis.

Bom demais este sentimento, mesmo que efêmero, de estarmos uns mais próximos dos outros de alguma forma. Este é o mundo: resta-nos viver.

Oxalá o Carnaval aconteça a partir de Itaquera, não por mera coincidência uma das regiões mais humildes de São Paulo, a maior cidade brasileira. Desta vez, a desejada trajetória São Paulo-Rio de Janeiro não é certa e, caso aconteça, vai demorar um mês; entretanto, dado o motivo, nunca os cariocas e os paulistanos estiveram tão sintonizados entre si.

@pauloandel