Geral do Maracanã

geral maracanã 1950

Agora o Maracanã é pouco diante do que já foi um dia.

Dito belo, moderno, elegante, agora com vários frequentadores de vanguarda, era uma das maiores expressões vivas do povo brasileiro entre 1950 e 2005, especialmente no setor mais popular do estádio, a geral.

O lugar dos mais pobres, humílimos, favelados, moradores das regiões mais distantes, geralmente abarrotando os trens da Central do Brasil.

Em suma, gente do povo. Brasileiros, cariocas.

O Maracanã era tão povo que o maior time de todos os tempos, o Santos de Pelé, saiu de São Paulo para disputar as duas finais dos seus maiores títulos: os Mundiais de 1962 e 1963.

geral 1958

Jogos com cento e cinquenta mil pessoas, algo inimaginável para os jovens de hoje. Qualquer partida de bom apelo era um Rock in Rio inteiro.

Um belo dia, a Fifa decidiu: chega de grandes estádios. Façamos arenas luxuosas, para poucos, e a gentinha que se recolha às televisões e botequins. Tragam as elites: elas garantem o negócio.

Porra nenhuma!

No Brasil, a vocação de capacho internacional é uma ferida viva. Então seguiram à risca. E mataram o Maracanã de vez, em troca de uma Copa que não veio, a de 2014, exatamente como aquela de 1950, que justificou o erguimento do monumental estádio.

Aos poucos, os torcedores foram dando o fora, de leve.

Os clássicos foram minguando, perdendo público cada vez mais, até que 2010 foi uma espécie de golpe final: três anos de clássicos no Engenhão foram suficientes para mostrar a história como menor do que ela realmente é.

O chamado Novo Maracanã vai completar quase dois anos de uso, com raros jogos realmente empolgantes e capazes de se fincar no imaginário popular. Um ou outro. A maioria foi para o ralo.

A composição da paixão do brasileiro por futebol ainda precisa de grandes análises e publicações, mas uma coisa é certa: quando o país abriu mão de sua população mais pobre nas arquibancadas para atender interesses que não os esportivos, perdeu-se no tempo e no espaço.

Alguém acreditou nessa bobagem de que o público passaria a ser de maior poder aquisitivo e sofisticado? O futebol brasileiro sempre viveu da paixão das classes econômicas menos abonadas.

Nossa dita “elite” é das mais ignorantes e alheias do mundo, tendo todas as outras programações à frente de qualquer jogo de futebol, considerado “coisa de pobre” num país excludente, de gente metida a besta com sua sofisticação de araque, cabendo na perfeita definição de Ademir Assunção: “um grande público com baixíssimo conhecimento cultural; um público que não lê, que não tem a mínima noção de História, que só assiste filmes enlatados, que não consegue entender um poema, por mais cristalino que seja, que não sabe a que mundo pertence”.

Esses é que iam ocupar o lugar da “gentinha” nos estádios?

Voltemos ao grande passado. É fácil lembrar-se de grandes equipes e partidas de antigamente. Os vascaínos podem se deleitar com o Expresso da Vitória, o campeão de 1974, o timaço do começo dos anos 90 e o de 1998. O esquadrão da Copa João Havelange e da Mercosul em 2000. Tantos outros. Quem vai se lembrar em 2035 das façanhas das décadas de 10 e 20 do século vigente?

O público foi alijado do espetáculo do futebol, passando a acompanhá-lo como uma novela da Globo (sem trocadilhos): toda hora, descartável, desimportando o que passou. Tendo os anunciantes, basta.

A mesma Globo, que tem claras preferências clubísticas demonstradas no curso de sua história – e que também pretende interferir em mudanças na disputa do campeonato brasileiro, logicamente em seu benefício em vez do fortalecimento dos clubes e da competição. Ela paga (por enquanto); logo, o resto que se dane. Mas a conta vem sendo cobrada, vide outro dia em plena estreia do Gugu Liberato.

Foda-se se os horários são ruins, se a torcida não vai, se os campeonatos entram muitas vezes pela porta dos fundos dos noticiários com fatores extracampo decidindo títulos.

E daí se o futebol brasileiro nunca mais se recuperar dos 7 x 1?

O que importam são o dinheiro e o lucro. Só.

Com tudo isso, o torcedor médio simplesmente desistiu. Ir ao estádio não é mais sua diversão preferida, mas apenas uma delas, podendo ser trocada por qualquer outra.

Quando você assiste a um jogo qualquer transmitido do Maracanã, ou ao menos em 95% deles, vê estampado na tela um mausoléu do futebol.

A geral, destruída para atender interesses corporativos, agora se tornou um horripilante muro cinzento com um mar de cadeiras vazias, amarelinhas, azulzinhas, mesmo quando tem algum público atrás dos gols.

piada

A isso chamam modernidade.

Há quem possa dizer que se trata de decadência embrulhada em dinheiro.

O último a sair, tranque a porta de ferro em frente ao nobre Bellini, agora cercado por cavaletes de ferro que impedem a leitura das placas na base da estátua.

Nelas, os nomes dos nossos craques campeões do mundo, que forjaram a história de um futebol maravilhoso cuja plateia era a “gentinha”: a mais admirável classe social humana.

Nas cadeiras amarelinhas e bonitinhas, nenhum ricaço disponível para chacoalhar suas joias, tal como numa conhecida brincadeira feita por John Lennon.

@pauloandel