Eurico Miranda.

Sinônimo de polêmica, o velho dirigente desperta paixões extremadas entre todos que acompanham o futebol brasileiro. Até mesmo entre nós vascaínos, há quem o ame e há quem o odeie.

Arrisco dizer que faço parte de uma minoria. Uma minoria que nem o ama e nem o odeia. Simplesmente eu analiso seus atos e opiniões como dirigente do clube que amo, e do qual sou sócio proprietário, a cada caso. Muitas vezes discordo dele. Mas muitas vezes também concordo. Gosto de tentar me despir de qualquer preconceito e tenho um “desconfiômetro” enorme sempre que a maioria parece pensar da mesma forma. Tenho ojeriza ao tal “efeito manada”.

Ontem, foi publicada no Jornal O Globo, aqui no Rio de Janeiro, uma entrevista feita pelo jornalista Miguel Caballero (para quem não leu, segue o link aqui), sobre a qual eu gostaria de tecer alguns comentários nessa minha coluna de hoje.

A primeira parte das perguntas giram em torno das razões de nosso terceiro rebaixamento, ocorrido no Campeonato Brasileiro do ano passado. Dessa vez, diferentemente da entrevista coletiva dada logo após o rebaixamento consumado, ele assume quase que individualmente a culpa pelo descenso. Esclarece com um pouco mais de detalhes os porquês de se culpar, mas eu acho que faltou mais. Faltou, por exemplo, explicar as razões pelas quais se contratou um técnico desqualificado (Celso Roth) e de sua manutenção por tanto tempo. No fim, ele volta a alegar o recebimento de uma “herança maldita” para justificar maus investimentos. Não cola. O mínimo que se espera de um líder é criatividade e boas soluções diante do ambiente ou do desafio que se apresenta. Eu disse o mesmo sobre o Roberto Dinamite quando ele alegava as mesmíssimas razões. Apostas erradas, contratações equivocadas… Ao menos para o Dinamite podia-se dizer que ele era um neófito neste meio, mas para o “velho” Eurico, ficou parecendo erro de principiante. Inadmissível.

Em seguida, fala sobre a situação financeira caótica do clube (algo que tenho certeza não ser privilégio apenas do Vasco). Sobre isso um breve comentário: sua forma de agir, de opinar, sua maneira personalista (beirando o ditatorial) e bravateira atrapalha muito o equacionamento e a solução de tais dívidas. De qualquer forma, é elogiável e surpreendente a transparência da resposta dada. Bem que ele poderia estender esse modus operandi para as reuniões do Conselho Deliberativo…

Esclarecimentos sobre sua saúde, suas recentes cirurgias sobre as quais nada tenho a opinar.

A entrevista então envereda para o lado político, onde, na minha opinião, assim como na política brasileira, não há mocinhos. Parece-me muito mais briga de facções criminosas lutando pelo controle de bocas de fumo. Ele afirma que votou e votaria em qualquer um que impedisse o Delfim Peixoto (presidente da Federação Catarinense de Futebol e seu atual maior desafeto) de assumir a presidência da CBF, em mais um exemplo clássico do “roto falando do esfarrapado”.

O papo descamba para a tal “Primeira Liga”, sobre a qual ele diz ser um movimento elitista, por pretender representar apenas os clubes da série A. A mim não agrada essa Liga. Não pelo que ela propaga. Suas ideias estão de acordo com o que eu penso que deveria ser a direção a ser tomada pelo futebol brasileiro. Mas eu não acredito nas lideranças do movimento. Como acreditar nas “boas intenções” de sujeitos como Mario Celso Petraglia ou Eduardo Bandeira “roubado é mais gostoso”?

Não chegaria a classificar de elitista o movimento, mas não deixa de ser uma boa a preocupação com os demais clubes das outras divisões. Não vejo problema algum em uma Liga organizar campeonatos, desde que ela tome atitudes sem se traduzir em benefícios específicos para um clube ou para um grupo de clubes, como por exemplo a divisão de cotas de televisionamento. Aliás, concordo 100% com a proposta de divisão descrita na entrevista. Seria justa e premiaria o mérito e o interesse público.

Passa-se a comentar sobre o Campeonato Carioca e, nessa parte, ele informa que no ano que vem teremos “apenas” 12 clubes… Tenho uma opinião um pouco radical sobre os campeonatos estaduais (algo que desconheço haver em qualquer outro grande centro futebolístico no mundo…), mas se for para mantê-los, que se encontre uma fórmula para aumento do interesse. Ninguém aguenta mais ver fases longas com jogos sem atratividade alguma, e ficamos todos aguardando as fases finais, que é o que realmente interessa. Numa próxima coluna, prometo escrever mais sobre este assunto.

Por fim, ele passa por dois assuntos com os quais um eu até concordo e sou grato pelo seu comportamento (mas merece esclarecimentos históricos) e por outro com a confissão de mais uma bravata.

Alegou que a primeira razão de sua atitude beligerante contra nosso maior rival foi para acabar com uma mentira que nos era imputada sobre o clássico Fla-Flu. Nessa, eu estou com ele. No fim dos anos 60 e início dos anos 70, uma verdadeira avalanche midiática queria porque queria transformar o Fla-Flu na maior rivalidade, no maior clássico de todos. Uma tremenda balela. Basta estudar um pouco da história dos três clubes envolvidos para se enxergar o engodo formado. O futebol do Fla surgiu do Flu e, mesmo sendo fruto de uma revolta de alguns sócios-jogadores, o Flu, desde o nascedouro, usou de toda a sua influência para ajudar o “filho bastardo”. Basta verificar que, ao contrário de todos os clubes que iniciavam no futebol naquela época, o Fla estreou diretamente na primeira divisão, graças à forte influência do Flu na Liga carioca dessa época, formada basicamente pela elite tricolor. De lá para cá, nunca houve uma animosidade genuinamente forte que justificasse toda essa fama do clássico. Além da sonoridade do Fla-Flu, de sua citação no hino do Fla (inventado por um torcedor do América…), e de alguns poemas de Nelson Rodrigues, trata-se muito mais de uma festa, de uma confraternização em que finda a peleja, os torcedores confraternizam juntos independente do resultado. Algo inimaginável entre vascaínos e flamenguistas. Sempre digo que Eurico surgiu no Vasco num momento em que era necessário um “Eurico” para dar uma porrada nas estruturas viciadas do futebol carioca da época. E ele assim o fez. Nessa resposta, ele traduziu bem essa história. O maior clássico do Rio é sem dúvida Vasco x Flamengo.

Porém não posso concordar com a segunda razão alegada por ele… Bravatar para supostamente atender a anseios da torcida é algo idiota. Ora… E se perdermos? Então, cobrar do Flamengo a responsabilidade e os valores correspondentes ao prejuízo causado pela sua torcida em São Januário serve apenas para isso? Para que eu possa supostamente zoar com meus amigos flamenguistas? Ficaria muito mais satisfeito se ele dissesse, por exemplo, que a cobrança estaria sendo feita ao Fla como estando sendo imputada a qualquer um que cometesse os mesmos vandalismos, pois ele, como presidente do clube, tem de zelar pelo patrimônio do mesmo.

Eurico Miranda não é o presidente que eu sonhava para o Vasco da Gama. Depois da experiência frustrada com o ídolo Roberto Dinamite, acho que deveríamos evoluir. Talvez sejamos o único clube no mundo que há quase 33 anos é presidido por apenas três dirigentes. Deveríamos tentar algo novo.

Mas, com ou sem “mensalão”, foi ele o eleito. E independentemente de quem se senta na cadeira de presidente, eu torço e sempre torcerei pelo Vasco da Gama.