Eurico Miranda

A notícia que muitos esperavam, dada a sua condição de saúde, e pela qual alguns (muitos?) torciam, acabou de ser veiculada. Eurico Miranda, o Eurico “do Vasco”, não habita mais nosso mundo dos mortais.

Confesso que acho muito difícil escrever sobre sobre alguém tão controverso, que despertou amores e ódios Brasil afora. Mais ódios, certamente.

Para os que o seguiam, Eurico era uma espécie de messias, o grande líder que deveria ser seguido cegamente, de forma apaixonada. Para outros, uma espécie de maligno, aquela pessoa à qual sempre se devia fazer oposição, mesmo que estivesse coberto da mais pura razão.

É fato que a história do Vasco se divide no antes, durante e depois de Eurico.

Indiscutível que Eurico conseguiu a proeza de transformar o Vasco, antes um clube simpático a grande parte dos torcedores rivais, na marca mais odiada do Brasil por longos anos. Repare que eu citei o termo “marca”, termo que extrapola os limites do futebol. Todo Vascaíno ouviu, por longos anos, variações do diálogo:

Você é Vasco? Eu odeio o Vasco!
Por quê?
Por causa do Eurico.

Óbvio, angariou muitas inimizades, imediatamente transferidas para o Vasco, já que sob seu reino, o Vasco era ele. Ou ele era o Vasco. A pior delas, a que mais nos causou prejuízos, foi com o sistema Globo.

O ápice da guerra contra esse inimigo foi a final do Brasileiro de 2000, com a queda do alambrado de São Januário e a posterior final no Maracanã. Nela, a famosa logo do SBT substituíndo o patrocinador causou a ruptura do contrato de patrocínio do Vasco e a oposição definitiva da Globo. A vitória (forçar a Globo a exibir a logo da concorrente) nunca passou perto dos enormes prejuízos que o clube teve com a falta de credibilidade decorrente dessa atitude inexplicável para com um parceiro comercial (a ACE).

Importante dizer que tinha razão em grande parte do que defendia contra a Globo. Foi, no entanto, uma luta de Davi contra Golias na qual Davi resolveu esmurrar o oponente. Não deu muito certo.

Nossos rebaixamentos e a derrocada como instituição dos anos subsequentes derivaram diretamente de sua atitude. De seu trono no Vasco, expandiu essa luta contra a Globo, com óbvios prejuízos ao clube. Os patrocinadores sumiram e seus anos finais do Vasco foram tristes.

Combalido fisicamente pela doença que já o acometia, só lhe restou o grande poder de oratória para fazer frente aos que o faziam oposição. E alguma dose de truculência.

Não parecem ser seus filhos, mas Roberto Monteiro, quem herda politicamente o seu espaço no clube. Mas não dá pra saber ainda o que isso tudo significa para o Vasco.

Certeza só a de que ontem encerrou-se uma era.