O estrangeiro é da casa (São Januário)

Manhã calorenta de sábado, lá fui eu para o berço da burguesia do Leblon. Casa do Alemão, sanduíches, aproveitar o fato de Catalano estar com folga no Rio.

As senhoras da zona sul passando com cachorrinhos pala Ataulfo de Paiva numa pressa enorme. Criancinhas vendendo roupas na porta do bar. Gente indiferente a tudo, inclusive aquilo. Eu não.

No Rio de Janeiro, o grande barato é, se o trânsito não estiver ruim, você cortar a cidade com incrível velocidade. Foi o que fizemos, eu e Zeh Catalano: num estalar de dedos, logo estávamos em São Cristóvão. Exceção foi a pobre kombi com seu pneu traseiro esquerdo atolado num buraco quase na saída norte do Rebouças.

Você estaciona na General Argolo e logo aparece Paulinho Cabeça Branca, o guardador. Tenta-se negociar o preço e as prestações, mas a guerra contra os flanelinhas já está perdida. Rimos e caminhamos.

Gosto de circular por São Januário. Os reducionistas temem a Barreira; acontece que, mesmo tricolor, tenho certa intimidade com o local desde 1982. E lembro de meu pai ainda me puxando pela mão aos treze anos, eu era pequenininho demais. Pena que passou tudo tão rápido. Depois foram jogos absolutamente desimportantes na tabela, geralmente domingo à noite, sempre com meu amigo Xuru, hoje com rumo ignorado no infinito.

A loja bonita praticamente vazia. À lojinha, meu vizinho flamenguista comprando alguma coisa para outro vizinho. Rimos do encontro.

Treylle da Deyse. Não tenho certeza do nome, mas sim do estabelecimento. Na boca da Barreira, tudo tranquilo, uma cerveja litrão geladíssima. Fomos muito bem atendidos.

Na entrada do estádio, a campanha eleitoral pegando fogo. Uma propagandista mais linda do que a outra. Chega o carro de som de Eurico, aka Domingos Brazão, o barulho fica tão alto que fica impossível conversar sem berrar. Vê-se de tudo: famílias, jovens, senhores, gatonas, sujeitos de ar prepotente, gente humilde, muito humilde, candidatos do clube, transeuntes. Futebol é assim.

Meu amigo Luciano, tricolor, de impecável camisa preta, me vê e ri com surpresa. Somos do ramo. O que é que você está fazendo aqui, além de apreciar a beleza do futebol num jogo sem o seu time em campo? Mais ou menos por aí.

Na arquibancada atrás do gol, um senhor pede para que tiremos uma foto. Vascaíno, morou anos em Sampa, tem três filhos são paulinos por lá.

A morena da assistência médica era uma delícia. Várias vasgatinhas no caminho. A garotada gritando com muita força. O estádio encheu. Legal demais estar debaixo dos bandeirões abertos.

Em campo deu Vasco. Foi superior o tempo todo, a dificuldade estava no penúltimo passe para a conclusão. Tomou algum sufoco desnecessariamente mas se safou bem. Douglas é um jogadoraço, pena que já entre cansado. Foi pênalti sim, Kleber bateu que nem a cara. O rapaz do Paraná deu um susto no fim, cabeceando no pé da trave esquerda. Quando foi preciso, Martín foi ótimo. Várias vezes pensei no Xuru e no meu pai, tive pequenos choros. Linda a festa da torcida. Você, vascaíno, não caia nessa esparrela de se sentir menor por causa de série B: basta estar no estádio e nem se lembrará disso. Sei do que estou falando. Além do mais, sou estrangeiro mas estou em casa.

O eco da torcida de São Januário, por conta da arquitetura do estádio, é mais vibrante do que no asséptico Maracanã de hoje. Um lindo estádio de 1927 precisa de mais cuidado, manutenção e limpeza, falta de vergonha na cara da administração atual. Coisa simples de fazer, basta ter vontade. Mas nem a incompetência da turma do Roberto tira de São Januário seu ar de majestade na entrada do subúrbio. Eis o encanto: é ali que se tira as melhores fotografias do povo excluído do Maracanã pela força da grana.

Do lado de fora, churrasquinho, muita gente de chinelos feito eu, as mulheres bonitas a caminho da noite, uma caminhada tranquila e silenciosa. Voltamos para a Argolo e claro que o Cabeça Branca já tinha se mandado, malandrinho. Tudo bem.

Dez minutos depois, éramos sopa de ervilhas e caldo de feijão no Vieira deserto. O Botafogo resistiu bem e poderia ter até vencido o líder Cruzeiro. Passamos um dia divertido e feliz, como todos os que deviam ser dos amigos que gostam de futebol.

Hoje tem meu amor em campo no Maracanã. Lá farei o de sempre. Para quem estranhou meu ontem – ninguém daqui porque já entendem do riscado – digo o simples: tem a mulher que você namora, ama e segue, tem aquela que você admira e pensa: “É, se eu não namorasse, não fosse apaixonado, esta seria a ideal…”. Coisas do futebol e da vida.