Estamos doentes.

Não sei precisar exatamente quando, mas há alguns anos, provavelmente quando estávamos passando por algum momento ruim num passado recente, diante da enxurrada de comentários fatalistas e pessimistas de nossa própria torcida, li em uma postagem de um vascaíno a quem admiro muito a seguinte frase: “a torcida do Vasco está doente”.

Naquela oportunidade a achei perfeita e hoje trago-a novamente porque julgo ser totalmente aplicável no momento atual. Estamos doentes.

Há pouco mais de um mês atrás, conquistávamos um campeonato que não víamos há 12 anos. E aí começam os sintomas de nossa doença: nós mesmos menosprezamos o que ganhamos!

“Ah… Mas o Carioca não é parâmetro para nada!”… “O Carioca é pura ilusão!”… “Não vale nada!!”. Cheguei a ler o absurdo de dizerem: “É isso que dá se iludir com vitórias fáceis sobre Duque de Caxias, São Cristóvão e Olaria…”. Ora… Os clube citados sequer disputaram a primeira divisão do Campeonato Carioca!! A raiva nubla a razão e enfraquece os argumentos. Vencemos o Campeonato Carioca porque passamos por cima de nossos adversários mais tradicionais nas fases decisivas. Será que ninguém mais se lembra disso?!?

Vamos com calma. O Campeonato Brasileiro é mais difícil. Mas isso é o mesmo que dizer que a cor amarela e amarelada… É óbvio que é! Arrisco dizer que qualquer vascaíno com um mínimo de discernimento sabia antes do apito inicial do primeiro jogo do Campeonato Brasileiro que nossa equipe, mesmo sendo a campeã estadual, não estaria entre aquelas que brigariam pelo título. A não ser que você seja um seguidor cego das bravatas proferidas por nosso atual presidente, isso era bastante fácil de se perceber. Ora… Então onde raios está a tal da ilusão que tantos vascaínos adoram proferir por aí?!?

Tínhamos um time para sermos campeões cariocas e fomos! Mas muitos se esquecem de que esse time foi remontado agora em 2015. Olhem o time que terminou sob intensas vaias a série B e a temporada de 2014 e o time que jogou o Campeonato Carioca. Completamente diferentes. Alguém já viu um time ser formado num ano e ser campeão, ou pelo menos almejar algo melhor no mesmo ano em algum campeonato dificílimo e longo como o Campeonato Brasileiro?

Outro sintoma de nossa doença que percebo é a ideia de que apenas por sermos o Vasco, deveríamos simplesmente ignorar os adversários menos tradicionais e vencê-los, e de preferência com goleadas… E ainda assim não estaríamos fazendo mais que nossa obrigação!!

Se é que “camisa” alguma vez ganhou algum jogo ou campeonato sozinha, isso no futebol atual não existe, e há muito tempo não é mais assim. Grandes equipes é que tornaram camisas imortais e não o contrário. Ganhar em casa de equipes como Goiás, Ponte Preta, Sport, etc., há muito se tornou tarefa difícil. Mas muitos insistem em dizer: “Não conseguimos nem ganhar do “poderosíssimo” Goiás!”… “Como vamos querer algo de bom quando em casa não ganhamos nem da Ponte Preta?”… Olhem a atual classificação. Esqueçam da camisa. Vejam os resultados. Vejam o desempenho destes clubes em seus respectivos estaduais. Vejam o histórico recente de cada um eles. Vejam a estrutura, a política, o momento recente deles. Sim! Eles estão melhores que nós!!!

Mas isso é perpétuo? Caímos numa vala sem fundo e nos tornaremos um novo “America”? Menos… Muito menos. O futebol atual é dinâmico. Os adversários não estão parados. Os clubes de menos tradição não ficaram satisfeitos ou não aceitaram de bom grado o papel que queríamos dar a eles.

Precisamos sim o tempo todo inovar e nos renovar. Superá-los. Mas isso é um processo. Não ocorrerá com uma varinha mágica. Não será instantâneo.

Não é nossa camisa que amedronta os adversários. Não são os inúmeros troféus de nossa sede que os inibem. O que deveria nos diferenciar é a nossa torcia. Essa sim, mais numerosa mas que hoje, doente, não tem feito diferença.

Mas como sair desse lugar péssimo em que nos colocamos se nossa própria torcida é a primeira a desistir. É a primeira a bradar aos ventos que com apenas 6 rodadas o nosso destino rumo à série B já está selado?

Em 2008, ano de nossa primeira queda, exatamente nesta sexta rodada, os clubes que figuravam na zona de rebaixamento eram Santos (5 pontos), Ipatinga (5 pontos), Goiás (3 pontos) e Fluminense (2 pontos). Desses, apenas o Iptainga, no final de 38 rodadas, foi rebaixado. Nessa mesma rodada o Vasco estava em nono lugar com 8 pontos.

Em 2013, na nossa segunda queda, novamente no fim da sexta rodada, estavam na zona de rebaixamento Criciúma (6 pontos), Flamengo (6 pontos), Atlético-PR (6 pontos) e Náutico (4 pontos). No fim, desses somente o Náutico caiu. O Vasco nessa rodada, estava em décimo quarto lugar com 7 pontos.

Ou seja, será que já podemos afirmar que com toda a certeza do mundo já caímos para a segunda divisão? Eu acho que não. Continuo não crendo nisso. Acho que há situações piores que a nossa por aí. Arrisco a dizer que não passaremos o campeonato brigando para não cair.

Como escrevi antes, o nosso diferencial é (ou deveria ser…) a nossa torcida. Muitos adoram dizer que a torcida rubro-negra é composta de “modinhas”, que só torcem nos momentos bons… Ontem, diante da Chapecoense, num jogo marcado para as 18h30 de um sábado, com apenas 1 ponto na tabela, mais de 20 mil flamenguistas estavam lá para incentivar o seu time a conseguir a primeira vitória. Para o jogo de hoje à noite, a torcida tricolor sofre para lotar o Maracanã. No purgatório da série B, até a diminuta torcida botafoguense coloca mais gente no estádio que a nossa.

Enquanto isso, na estreia do time no Brasileirão, em casa, após vencer um campeonato que não via há muito tempo, nossa torcida deixa nosso estádio às moscas… Vaia os jogadores no segundo ou no terceiro passe errado.

Sim. Estamos doentes. Não sei se o nosso time, com os atuais jogadores, terão força para reagir (e ainda há tempo para isso) sem o nosso apoio. O nosso tão cantado “Caldeirão” jaz frio, sem emoção, sem grito, sem pressão, vazio…

Precisamos fazer algo. Colocar de lado a política (Jesus!!! A eleição acabou!!!!!), colocar de lado nossa implicância com alguns jogadores e incentivá-los aos máximo. Precisamos reacender o fogo do nosso “Caldeirão”. Precisamos nos fazer presentes. Precisamos comparecer. Precisamos jogar juntos com os jogadores do Vasco. Precisamos incentivar, dar aquela injeção de ânimo naquele jogador que desiste de alguma bola. Precisamos mostrar para ele que ele deve disputar cada lance como faz o Guiñazu, por exemplo.

Eu estarei lá no próximo sábado. Sim o dia e o horário são horrorosos, mas eu vou assim mesmo. Omissão não combina com nossa história. Não combina conosco.

Se o obstáculo a ser vencido é esse, pois bem: vou superá-lo. Esse é o caminho para a cura.

—-

E por favor, não entendam esse meu texto, quase um desabafo, como uma acusação de culpa. Eu não estou dizendo que a culpa pelo péssimo início de campeonato é da torcida. Ou da falta dela.

Há outras razões para isso.

Estou aqui dizendo que a cura para essa doença passa por uma mudança, hoje radical, do comportamento de nossa torcida.

Alguns podem argumentar que somente bons resultados enchem os estádios. Eu não concordo que SOMENTE isso seja a razão para um incentivo maior. É TAMBÉM um fator.

Posso também argumentar que grandes incentivos TAMBÉM fazem um time vencedor. Mas obviamente não é SÓ isso que transforma uma equipe em um sucesso.

Mas afinal, quem deve dar o primeiro passo?

Não adoramos cantar que “…minha vida é você, na alegria e na dor…”? Pois bem: esse é um momento de dor. E aí?

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Ontem vi apenas o segundo tempo do jogo. Sinceramente achei que perderíamos de mais… Com seis modificações, jogadores que nem sequer jogaram juntos, sem tempo para treinar, pegamos o líder do campeonato na sua casa…

Deu a lógica e perdemos mais uma. Ainda assim, diante da situação e do que vi no segundo tempo, em relação aos dois últimos jogos, melhoramos e resistimos bem. Acabamos iniciando nossa derrota num pênalti bobo.

(Aliás, mais um sintoma de nossa “doença”: li muitos dizerem que não foi pênalti… Meu Deus!! A imagem é claríssima!!!)

Depois que tomamos o primeiro gol, ainda tentamos algo e não fomos pressionados. Fomos para cima, sem qualidade, é verdade, mas empurramos o Furação para o seu campo na base do abafa. Um pena que tenhamos tomado o segundo gol num contra-ataque, mas esse era um risco que deveríamos correr.

Pelo menos pudemos ver novas opções em campo como o goleiro Charles, os meias Biancucchi e Jackson, além do volante Lucas e do lateral Júlio César. Vi apenas um tempo do jogo e foi pouco para qualquer conclusão, mas ao menos tive a impressão de que eles podem ser aproveitados.

 

 

Posted By Kiko Abreu

3 Comments

Diogo

Francisco, acho sua análise sobre quem estava na zona do rebaixamento na 6ª rodada um pouco sem sentido. Deveríamos ver quantos pontos nós tínhamos nesses dois anos que fomos rebaixados. E nesse quesito estamos muito mas muito pior! E se olharmos para os dois clubes q estavam entre os últimos em 2008 e 2013, eles também tinham mais pontos que nós (mesmo que pouco). Então por isso, acho q a situação não está nada boa.
Entretanto não chego a achar que já estamos rebaixados, sempre vou acreditar que ainda há esperança! Mas confesso que é algo muito difícil de se exigir para os torcedores.

Você citou a questão da torcida não ir para o estádio, mais uma vez estamos numa situação complicada nesse sentido.. Cobrar 60 reais por um ingresso para ver esse time, com a situação de crise da nossa economia é realmente pedir demais. Isso é só uma das inúmeras coisas (a pior eu diria) que desmotivam o torcedor para ir.. Vc citou os mulambos como comparação, mas poh mesmo estando mal igual eles estão, ao menos eles conseguem dar esperanças para a torcida contratando jogadores melhores q os nossos, vide a contratação do Guerrero e provavelmente a do Sheik.

Hora de reaprender a torcer - Panorama Vascaíno

[…] escrevem. Contudo, vou tentar falar sobre algo delicado, parecido com o que o Kiko disse aqui essa semana, mas que eu acho extremamente necessário reiterar: a postura da […]

Hugo

A culpa é da torcida sim!

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