Estaduais: sim ou não?

Podem procurar: não há no mundo outro país em que se organizem campeonatos estaduais, ou de províncias, ou da menor unidade organizacional do estado que você queira considerar. No passado – precisamente entre 1967 e 1984, na Argentina, houve sim campeonatos metropolitanos com a participação apenas de times da província de Buenos Aires, mas a ideia não vingou.

Mas afinal, por que só no Brasil? A raiz está na dimensão continental de nosso país, o que tornava uma barreira intransponível no fim do século XIX e início do século XX, quando o futebol foi introduzido por aqui. Alguns amistosos aqui ou acolá entre times do Rio e de São Paulo e nada mais. Ninguém no Rio de Janeiro sabia o que acontecia no futebol de Pernambuco, por exemplo. Daí a criar-se campeonatos regionais foi um caminho natural.

De solução natural a uma tradição inventada foi um pulo de algumas décadas, e hoje, por mais que haja múltiplas razões para sua extinção, os estaduais permanecem. Mesmo deficitários, mesmo com interesse menor, mesmo atrapalhando a preparação para os campeonatos de maior importância… Tenho a sensação de que ninguém quer colocar “o dedo na ferida” e discutir a necessidade de haver estaduais.

As rivalidades locais foram construídas no esteio destes campeonatos. Por exemplo, nenhum vascaíno em sã consciência vai dizer que o Corinthians é o seu principal rival. Como gosta de afirmar o nosso presidente, jogo contra o Flamengo é um campeonato à parte.

Mas vejam bem o caso do estadual fluminense (equivocadamente chamado de carioca…). Desde os anos 60, com o enfraquecimento e a quase extinção do outrora grande América, que no Rio de Janeiro sabemos que um dos quatro grandes será o campeão. Precisamente desde 1967 (em 1966 o campeão foi o Bangu), há quase meio século portanto, que sabemos o titulo ficará entre Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo. Eu mesmo, que nasci em 1968, nunca vi outro campeão fluminense que não um dos quatro grandes. Em São Paulo, salvo raríssimas vezes, o título fica também dividido entre os quatro grandes… Em Minas, Rio Grande do Sul, Bahia e em outros, a coisa fica mais restrita ainda – geralmente a disputa fica entre dois clubes.

Eu não sei se o leitor amigo tem a mesma opinião, mas para mim essa tradição já passou da hora de ser extinta. Ok… Ok… Isso talvez soe radical demais… Então que pelo menos seja algo menor, algo de “tiro curto”, que sirva muito mais como preparação para o campeonato nacional do que um título que outrora foi importante, mas hoje, é pouco representativo.

Que a FERJ, regiamente remunerada, se preocupe em organizar torneios classificatórios com os clubes pequenos para que dois ou no máximo quatro, se juntem aos grandes e façam um campeonato regional simples e rápido.

Tradições, como tudo na vida, nascem, crescem, tem o seu apogeu, o seu declínio e morrem! Minha avó dizia que antigamente era tradição pedir a mão da moça em casamento… Alguém faz isso hoje?

Antes que me acusem de “traidor” ou algo semelhante, vou dar a minha opinião sobre a tal “Primeira Liga”. Eu até concordo com a ideia de libertar os clubes do julgo viciado e carcomido das federações e da corrupta CBF, mas não sob as lideranças que hoje vemos nessa liga.

Como acreditar nas boas intenções de Mário Celso Petraglia? Como juntar-se a Eduardo Bandeira “roubado é mais gostoso”? Alexandre Kalil…?

Não. Para mim não passam de lados da mesma moeda onde se encontram Eurico Miranda, Andrés Sanchez, etc.

A boa ideia da “Primeira Liga” nasce com vício de origem e parece-me muito mais choro de quem no momento está fora da “divisão do bolo” do que algo com reais intenções de melhorar o futebol brasileiro.

Hoje, sem aquilo que vem nos diferenciando dos demais – o entrosamento, tivemos nosso primeiro tropeço.

Sem alarmes ou invenção de crises. Empatamos quando podíamos empatar. Um time quase todo reserva e muito pouco entrosado.

Sobraram espaços para o adversário e passes errados do nosso time.

Domingo, um bom teste para o time titular.

Estarei lá!