Esse futebol aí, não…

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Nestes dias em que a violência se faz mais estúpida do que nunca no Rio de Janeiro, bem que a gente por aqui merecia mais futebol como diversão.

Passatempo.

Alimento para deliciosas conversas de botequim. Como era há uns trinta ou quarenta anos atrás. Ou vinte mesmo.

Antigamente o Rio era um celeiro de craques. Do campo do Cajueiro, na Edgar Romero, passando pelas quadras de futebol de salão do Grajaú Tênis Clube, pelos campos de areia do Aterro até chegar à praia de Copacabana.

River, Helênico, Quinta da Boa Vista, Clube 17, Carioca, Mackenzie.

Tomazinho. Coelho da Rocha.

As quadras dos quartéis dos bombeiros. Xavier da Silveira, Humaitá, Gávea.

Copacabana: Dínamo de Tião Macalé, Bairro Peixoto de Dri e Roberto, Colorado, Maravilha. O Força e Saúde, o Racing, o Juva. Não tendo times para jogar contra, acontecia uma dupla de praia. Futevôlei ainda não havia.

Golzinho de rua com bola de isopor. Até na Lagoa, essa agora cheia de assassinos. Nas pracinhas. Os garotos jogavam com camisetas Hering ou as com os escudos e números costurados.

Joguinho na rua da vila, sem acertar janela nenhuma.

Respirava-se futebol por todo lado. No totó, na mesa de preguinho, no Estrelão do futebol de botão, na mesa magnética de disco. Até no Telejogo.

Televisão, às vezes.

Ir ao Maracanã para ver o time de coração. Ou o dos outros, fosse para secar ou se distrair com um bom espetáculo. Não havia esse ódio gratuito aos rivais de hoje. Gostar de futebol era mais importante do que a obsessão pela vitória.

Jogões às cinco da tarde, casa cheia.

Os craques andavam pelas ruas a pé, davam autógrafos, abraçavam a molecada. Seres humanos normais e mortais. Jogador era jogador, não investidor enrustido. Os dirigentes eram mais engraçados, bem humorados. Entrevistas diárias.

Os juízes? Todo mundo conhecia os nomes. Sansão, Félix, Cosenza, Wright (ô), Giese, Walquir, Margarida, Bianca, Feldman, Pomeroy. O Cabelada!

Um dia, tudo mudou.

O futebol começou a ficar cada vez mais um produto, em vez de diversão. Um negócio.

As quadras, campos e areias foram trocadas pelo individualismo dos games nas residências.

A violência tirou as crianças das ruas. Os craques trocaram as ruas pelos aeroportos.

Os cartolas viraram tecnocratas com um vocabulário próprio: gestão, meta, planejamento. O verborrágico futebolês padrão MBA, geralmente praticado por quem nunca chutou uma bola. Se o caso é teoria, o mestrado não era melhor?

Ir ao estádio deixou de ser a razão de ser dos torcedores e a principal fonte de financiamento dos grandes times.

Os estrangeiros passaram a copiar o futebol que encantava cem mil pessoas no Maracanã, enquanto passamos a copiar o que eles tinham de pior: cintura dura, passe ruim, drible fraco. Deu no que deu: 7 a 1.

Foi no Rio, de onde escrevo, mas também de todo o Brasil.

Nunca mais os molequinhos descalços na terra batida viraram os heróis da Seleção Brasileira.

As coletivas pasteurizadas dirigidas pelos assessores de imprensa tornaram-se um must. Chocho: perguntas previsíveis, respostas padronizadas. Mais ridículo do que um demitido ter que passar o constrangimento de explicar a decisão de terceiros, impossível.

Dirigentes viraram gerentes. Managers. Executivos. De executar, matar.

Um conjunto de coisas ajuda a explicar de onde viemos e onde estamos.

Onde cem mil vibravam, cinquenta mil parecem figurantes de auditório. A festa deixou de ser natural para ser programada, às vezes impostas.

Clássicos chinfrins terminando às nove da noite de domingo. Na quarta, só depois da novela. Dez.

Não entenderam que o futebol só funciona com adversários limitados às quatro linhas do gramado.

Que os ídolos não podem ser pré-fabricados.

Que a elite nunca vai encher o estádio porque ele foi parido e criado com o colo dos mais pobres, que contavam moedas para lotar a geral.

Que a TV precisa ser parceira e não donatária.

Vem aí um novo semestre. Trinta e poucos jogos, a maioria em vão.

O resto lá de cima, que deu saudade, pertence a um tempo em que Roberto era o herói e Eurico, o seu libertador.

Tempos de um país bem mais difícil, em contraponto a um futebol mais acolhedor, cativante e feliz.

Ainda torcemos, gostamos e queremos. No entanto, nosso ar rarefeito tem sido encontrar agora pequenos momentos do que já fomos um dia.

Como se vê, outras palavras.

@pauloandel