Ditadura vascaína

Você já parou para se perguntar quantos presidentes vascaínos conheceu? Não? Se não parou, recomendo que o faça agora. Eu fiz esta pergunta outro dia e descobri que, com 49 anos recém-completados, me lembro de ter conhecido apenas cinco presidentes do clube: Agathyrno da Silva Gomes (1969-1979), Alberto Pires Ribeiro (1980-1982), Antônio Soares Calçada (1983-2000), Eurico Miranda (2001-2008) e Roberto Dinamite (2008-2014). Estes cinco homens comandaram o Vasco nos últimos 45 anos – como nasci em 1965, antes deles houve outros três presidentes: Manuel Joaquim Lopes, João da Silva e Reynaldo de Mattos Reis, dos quais não lembro, por motivos óbvios. Quer uma comparação? Pois bem, de 1969 até hoje, o Botafogo teve 12 presidentes, o Flamengo, 15, e o Fluminense, 16.

Mas o Vasco é mais que um clube. É uma nação. Então, nada mais justo que comparar com o nosso País. Considerando os mesmos 45 anos, de 1969 em diante, o Brasil foi presidido por Costa e Silva, uma junta militar, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Nada menos que 10 presidentes e um grupo de interventores. Ou seja, mesmo com o Brasil amargando uma ditadura no meio do caminho, teve o dobro de mandatários. E é inegável a salutar alternância de ideias políticas que vivemos no País, em especial nos últimos 25 anos – período em que tivemos apenas três presidentes no Vasco e cinco no Brasil, mesmo com reeleição e mandato maior que o triênio vascaíno.

Não é difícil constatar que a concentração do poder nas mãos de poucas pessoas dentro do Vasco produziu um perigoso efeito: a falta de nomes capazes de encarar o desafio de presidir um clube que tem uma torcida do tamanho da população de Portugal – a segunda pátria de todo vascaíno que se preze. Hoje, a poucos meses da eleição, que ainda não tem data prevista – a assembleia da Junta Deliberativa dos poderes do clube foi convocada para segunda-feira -, os candidatos são o velho Eurico (ex-presidente do clube e hoje presidente do Conselho de Beneméritos), Roberto Monteiro (vereador, ex-líder da Força Jovem e vice-presidente do Conselho Deliberativo) e Nelson Rocha (ex-vice de Finanças e ex-vice-geral, que pertenceu à diretoria de Roberto).

Alternativas a estes três nomes? Fala-se muito da Cruzada Vascaína, do Leonardo Gonçalves, conselheiro do clube. E de uma frente dela com Fernando Horta, Jorge Salgado e Pedro Valente. Um grupo que juntaria nomes de peso e outros mais novos. O problema é a lentidão para se definir a estratégia desta frente. Vai sair mesmo? Quem seria o candidato? Horta, se viesse na frente, daria mais atenção ao Vasco ou à Unidos da Tijuca, campeoníssima do Carnaval? Jorge Salgado, homem do mercado financeiro, seria capaz de reestruturar o clube, administrado de forma amadora há décadas? Leonardo teria a experiência necessária para conduzir uma modernização do clube? Valente tem saúde para ser presidente? São muitas dúvidas, que fazem o vascaíno coçar a cabeça e temer pelo futuro.

Sem esta definição, meus caros, hoje, o futuro do Vasco é o atraso. Hoje, o futuro do Vasco seria ditado pelo mensalão, e não tenha dúvidas que, com o quadro atual de candidatos, daria Eurico Miranda. A não ser que a assembleia de segunda-feira tome a medida correta e corte os invasores que se associaram em bloco, em um único dia, ao Vasco.

Se isso não for feito, e se não houver um candidato forte para enfrentar Eurico, o futuro do Vasco é a volta da ditadura vascaína.

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lamentável

O atraso é uma possibilidade que me arrepia a alma e que me traz uma lamentável lembrança: a camisa do Vasco com a logomarca do SBT. Esta é uma imagem aterrorizante para quem cobriu aquela final, como eu fiz, em janeiro de 2001, para o Jornal de Brasília – e, confesso, torcendo como um louco em plena Tribuna da Imprensa do Maracanã, ignorando solenemente os queixumes de isso não ser “de bom tom”, até porque cansei de ver ali um monte de colegas flamenguistas exercitarem toda a sua vocação de ser Flapress a plenos pulmões, e não apenas nos textos e fofocas plantados em matérias e colunas para desestruturar Vasco, Fluminense e Botafogo, como fazem todo santo dia.

A imagem me causa horror até hoje, como me causa espanto ver que há vascaínos que se regozijam de uma “sacaneada” na Globo, como se o que foi feito naquele dia fosse algo bonito e legal.

Nunca foi. Naquele dia, o Vasco mostrou o seu amadorismo da forma mais cruel.

Time, o Vasco tinha o melhor do Brasil. Talvez até das Américas, mas deu azar de pegar, na Libertadores, um Boca em ascensão – o que faz dele um dos times mais difíceis de se derrotar no mundo. Pois bem, como este timaço, o Vasco passava por cima de tudo e de todos. Passava até da má vontade dos que queriam entregar o título da primeira divisão de mão beijada ao São Caetano – uma modinha esportiva, como os Grêmios Barueris da vida…

Mas para Eurico, o almirante do atraso, não bastava vencer. Era preciso tripudiar de quem mais pagava pelas exibições do Vasco: a Rede Globo. A emissora nunca foi simpática ao Vasco, e nem seria àquela altura, mas tinha de engolir nosso elenco e a audiência que dávamos. Éramos um fenomenal produto. Logo, pagavam, adiantavam cotas, faziam o possível para manter a chave do jogo deles: a audiência em alta, coisa que o Vasco garantia sozinho naqueles tempos. Burramente, o almirante do atraso meteu o logotipo do SBT na nossa camisa. “Sujou” a imagem da Globo com a logomarca do canal que mais rivalizava em audiência – e que tinha o péssimo slogan “Liderança absoluta do segundo lugar”, mas nossa competência como equipe afastou a piadinha pronta que já rolava na boca dos flapressistas dentro do Maracanã.

Uma vingança genial, para muito vascaínos.

Nada disso… A vingança não era do Vasco, mas de quem o comandava na época. Era uma vingança do Eurico contra a Globo, usando nossa camisa para isso. Pior: rasgando o contrato com a Procter & Gamble, fabricante do sabão Ace, que nos patrocinava havia dois anos, em um acordo proveniente da parceria do Bank of America/Nations Bank, a mesma que era a melhor do futebol brasileiro e que ele destruiu com arrogância e gestão errada dos recursos aportados. Detalhe: a mesma Procter & Gamble patrocinava, com a marca Pringles, o timaço de basquete campeão de tudo na época.

O resultado foi o troco. A Globo suspendeu adiantamentos. Asfixiou mesmo o Vasco. Mas para matar Eurico. Como demorou sete anos, quase matou o clube. Para delírio da Flapress.

Ao mesmo tempo, Eurico rompeu a parceira, as marcas internacionais sumiram. O Vasco encolheu. Virou campeão carioca de 2003 e só.

Ao meter de graça uma marca em um espaço que o patrocinador pagava caro, Eurico, de forma irresponsável e leviana, desvalorizou a camisa do Vasco e a palavra do clube no mercado. Sinalizou que não cumpria contratos – ele e o Vasco. E ninguém mais se interessou em estampar a marca na camisa. Responda sinceramente: qual é a empresa que vai assinar um contrato com um clube que pode ter, a qualquer momento, um presidente que, em plena final de campeonato (dia da maior audiência da competição e que vai gerar uma tremenda visibilidade para a sua marca), saca seu logotipo para colocar qualquer coisa ali? Nenhum.

Roberto Dinamite e seu grupo não trouxeram a fila de investidores prometida. Mas, ao menos, usaram o trânsito político e as boas relações em Brasília, capitaneadas por um dos poucos caras competentes desta diretoria, para conseguir dois contratos com Eletrobras e Caixa. Não são contratos fabulosos, mas ao menos havia uma logomarca de peso na camisa – e não um vazio de anos. Foram mal administrados no Rio e passamos o vexame de ter de conseguir a liberação de verbas à base de ações sindicais – e cabe destacar que, neste caso, os acordos costurados foram prejudicados por um cidadão do MP, que fez tudo para atrapalhar Vasco, Fluminense e Botafogo, mas facilitou a vida do clube cuja bandeira tremula em sua sala. Mas tivemos uma empresa na camisa. E um título de Copa do Brasil e o ano de 2011 para celebrar.

A imagem do clube melhorou um pouco no mercado. Faltou só ao Roberto entender que administrar o Vasco é mais que abaixar a cabeça e aceitar cota menor de TV e patrocínio. Se o antecessor era um bravateiro que não cumpria contratos, a ele faltou a força de encarar e ameaçar, além de capacidade de saber pedir mais. Uma pena.

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Roberto, aliás, podia ter feito, em 2009, uma das maiores revoluções no futebol brasileiro e, sim, sacaneado a Globo em alto estilo. Ele esteve com a cúpula da TV Record, que queria abocanhar os direitos do Vasco na Série B. A ideia era pagar, e bem, para ser a emissora oficial do clube e, depois, ir brigar, com apoio vascaíno, com a Globo para comprar os direitos de imagem da Série A. Um acordo completamente diferente de estampar de graça a logo do SBT.

Faltou a ele a força de dizer um “topo” e colocar todos os seus jogos na Record, em troca de boa soma, adiantamentos pagos e uma bela briga com a nave-mãe da Flapress. A Globo soube, correu atrás, fez valer os direitos dos adiantamentos e ficou com o Vasco pagando o que quis. Faltou a coragem do centroavante Roberto Dinamite ao presidente Carlos Roberto de Oliveira.

Todo mundo que está no clube pode negar esta história. Mas eu sei que ela é verdadeira. Até porque, na reunião na Record, Roberto fez uma confidência a um amigo meu, que estava presente na mesa de negociação pelo lado da emissora. Admitiu que simpatizava com o Botafogo quando começou a jogar no São Bento de Caxias, na segunda metade da década de 1960 – logo depois, seria descoberto por Gradim e levado para o Vasco, em 69. Mas ele também disse que, lá pelos seus cinco ou seis anos, era Flamengo. O Vasco só virou o amor de sua vida quando começou a jogar e a ser ídolo da torcida.

Não tenho dúvidas que ele é vascaíno.  Nem que foi um baita ídolo. Só foi um presidente aquém do que esperávamos.