A Democracia do Vasco da Gama

Toda democracia é maravilhosa desde que, ao final das discussões, haja alguém para dar um murro na mesa e decidir.

Estão fazendo um xoxoxó imenso (e o espertalhaço está ganhando minutos e mais minutos de mídia gratuita) por causa de um episódio no qual o Eurico está cobertíssimo de razão. Um barco a remo não anda se os integrantes, por melhores que sejam individualmente, não estejam remando de forma sincronizada e coordenada. Em qualquer empresa do mundo, a diretriz de rumos é estabelecida por seu comandante, e todos os demais devem seguir e trabalhar por este fim. Então, não faz nenhum sentido que um jogador diga que o time vai brigar por posições intermediárias se a diretriz do clube é brigar pelo título.

Inclusive, em nenhum momento o Eurico afirmou que o rumo foi decidido apenas por ele. Afirmou, sim, fanfarronica e egocentricamente como sempre, para deleite dos que o odeiam, que a decisão do presidente do clube (da empresa, do boteco, da padaria, do grupo político, da quermesse da Igreja, do Clube da Luluzinha etc) deve ser acatada pelo resto dos integrantes da equipe, esteja o elemento em que posto estiver.

Não se está pondo em questão se o Vasco pode ou não brigar pelo título brasileiro – algo que já parece um devaneio. Mas sim o consenso que deve existir em qualquer instituição acerca dos objetivos a serem buscados. Ainda que seja muito saudável que se queira sim brigar pelo título. Questão de mentalidade.

*****

Sempre achei muito interessantes as reuniões de condomínio. No primeiro prédio em que morei logo depois de casado, me tornei logo próximo do síndico e de seu conselho. Vinte e seis apartamentos. Reunião marcada, carta entregue a todos os condôminos com a antecedência necessária. Seis, oito presentes. Não havia quórum suficiente para nenhuma decisão importante. Até que um dia surgiu a ideia.

Na reunião seguinte, convidou-se os condôminos para a reunião para tratar de vários assuntos. Dentre eles, o aumento imediato de 150% da taxa condominial. Só faltou sair tapa para entrar. Não me lembro o número exato de presentes, mas a renda foi altíssima. Será a prova de que o aumento dos ingressos não afugenta as pessoas do estádios? Pode ser. Sei lá.

Morei então num outro prédio, em Copacabana, com 120 apartamentos. A síndica era uma senhora – como me custa usar este termo brando para me referir a ela – dos seus setenta e muitos anos, perfeitamente lúcida, uma déspota em seu trono. A reunião era o “show” de sua gestão (um desastre) no prédio. A média de condôminos se mantinha. Cerca de vinte compareciam em média às reuniões.

Na primeira a que fui, meu queixo quase caiu. Foi posto em discussão determinado assunto. As pessoas se pronunciaram, eu inclusive. Abriu-se então a votação. A síndica então estendeu quarenta e duas procurações e pulverizou a vontade dos presentes com o seu séquito de fantasmas. Claro, ela queria o contrário da minha vontade. Por meses a fio eu e um grupo reduzido de opositores ficamos catequizando um morador aqui, outro ali, até que um dia conseguimos destituir a ditadora. Enquanto isso, em todas as reuniões possíveis, esse nosso grupo esteve presente para questionar qualquer dos absurdos que ali eram ditos, ainda que, naquele momento, não houvesse nenhum sentido prático em estar ali. Ela já sabia que tinha oposição e via-se em seus olhos que aquilo a incomodava. Além disso, as decisões dela eram tão absurdas que com o tempo fomos conquistando outros condôminos pró síndica, que passaram a enxergar a realidade dos fatos e se bandearam para o nosso lado. Trabalho de formiga.

Tudo registrado em ata. Para a posteridade.

As histórias são 100% verídicas.

Pra que eleger uma oposição se no primeiro momento mais importante – e aparentemente absurdo – da atual administração ela se faz ausente e se manifesta por meio de uma carta? Por que não foram lá cumprir seu papel e protestar, reclamar, fazer barulho, atrair mídia? Será que uma carta faz mais efeito do que trinta (ou quantos pudessem estar) presentes? Será que dai não se podia cativar um elemento do Conselho, que fosse? O que será que pensam dessa atitude os eleitores que votaram na oposição?

Eurico teve um voto contra. Uma pessoa votou no Vasco.

Nada mudou. Nem na situação, nem na oposição.

Posted By administrador

8 Comments

Léo

É difícil mudar algo quando no conselho estão 269 conselheiros iguais essa tua sindica velha e turrona que o senhor comentou.

administrador

Verdade! Mas ninguém morre de véspera! 😉

Marcos

Zeh,
excelente análise. Pena que nossa imprensa esportiva não tem tido o espaço e a competência necessária para fazer o que você fez aqui. Parabéns.

Um abraço
Marcos Azevedo

administrador

Obrigadão! Acho que falta é interesse pra imprensa esportiva falar o que deve. um abraço!

Eduardo

Em primeiro lugar, vu logo avisando: Sou admirador do Eurico. Dito isto, gostaria de manifestar acerca do episódio da reunião do conselho. Na verdade não vou entrar no mérito da decisão tomada pelo conselho. Apenas queria ressaltar o absurdo que deu causa a tudo isso e lamentar que não tenha havido a devida discussão e condenação do fato pelos Vascaínos. Na política do Vasco, principalmente quando o Eurico está envolvido, é comum que muitos Vascaínos deixem de perceber o que está por trás de algumas coisas apenas por “Euricofobia”. A condenação do Eurico por causa da declaração “ofensiva” aos desembargadores foi absurda e o valor da condenação uma verdadeira aberração. Condenar tal situação deveria ser algo que até os euricófobos teriam que fazer. Não por apoio ao Eurico, mas sim pela defesa do estado de direito e pra tentar demonstrar que as autoridades não podem utilizar-se dos poderes de que são investidas PELA LEI para tentar calar quem as ataca. Eurico foi impertinente na sua declaração? Sim, mas apenas isso. Ser condenado e ainda por cima com um valor absurdo a pagar a título de indenização é uma afronta não só a ele mas a TODOS OS CIDADÃOS. A mensagem passada por esta condenação é a seguinte: “Nós, desembargadores, estamos acima de vocês, reles mortais e não aceitamos nenhuma crítica dirigida a nós. E se nos sentirmos atingidos processaremos quem nos atingiu e receberemos uma indenização maior do que aquela que seria dada a um reles mortal ainda que em um episódio muito mais grave”.

administrador

Olá Eduardo. Obrigado pela leitura. Nenhum problema em ser admirador do Eurico. No texto, eu não abordo o tema porque não domino o assunto o suficiente para abordá-lo.
Acho, no entanto, que ele pode ser tratado como um problema de campo:
– Jogador adversário corre sozinho para marcar o gol. Vascaíno aplica um pontapé. Expulso. Total apoio a ele.
– Jogador dá uma bolacha no adversário. Expulso. Prejudica o time.
Quando do problema, a atitude foi feita em defesa da instituição Vasco da Gama ou de algum de seus integrantes? Da resposta vem a justiça ou não da ação.
Por isso, não creio que o Vasco devesse ser o punido na história.
Um abraço.

Marcio

Eu vejo o vasco administrado por pessoas perigosas, capazes de tudo pra se manter no poder, e creio ser isso que espanta os opositores, moro em Goiás e lamento muito o ponto que chegamos, termos um presidente desse naipe, lamentável. Abraço.

administrador

Olá Marcio,
obrigadão pela visita.
Acho que se esta fosse a razão, ela seria anterior à eleição desse Conselho Deliberativo.
abraço!

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