Covid 10 x 0 Vasco

Este site tem andado bem parado ultimamente, mesmo em tempos anteriores à pandemia. Estou me forçando a retomá-lo hoje, embora sem vontade de escrever sobre futebol, porque os fatos me obrigam.

Falar de futebol neste momento é quase como ir à rua num dia lindo como o que amanheceu hoje por aqui, em que tudo parece normal até você olhar para alguém vestindo uma máscara. Tem gente passando fome, tem gente perdendo tudo o que conquistou na vida inteira, tem gente perdendo a sanidade. Olho pra minha filha de dez anos e fico me imaginando na idade dela tendo de ficar trancado em casa por meses por causa de uma coisa que não se vê. Meus pais, com seus oitenta, socados num apartamento sem poder pegar um solzinho sequer. Tudo é muito deprimente.

Neste período de confinamento, vi muito pouco futebol. As reprises de 1970, o título da Libertadores de 98, a fantástica Mercosul de 2000.  E só. Ontem, sábado, liguei a TV para tentar retomar o prazer de ver um jogo. Estava passando um jogo da segunda divisão inglesa, do Fulham, de Craven Cottage, um estádio de 1800 e pedrinha, maravilhoso, romântico. E vazio. É impossível olhar pra TV e encarar com normalidade aquela ausência de público.

E é nesse contexto que o Vasco, por livre e espontânea vontade do(s) seu(s) dirigente(s), se insere hoje. Acordei nesta manhã de domingo sem saber se iria ou não ter jogo hoje, por conta do caos reinante em nossa terra, em que muitos mandam, cada um para o seu lado. Vou tentar o milagre de não entrar na seara política de quem está certo ou errado. Mas dá pra dizer que o Vasco, o meu Vasco, sempre teve papel de liderança e independência no cenário brasileiro. Nossa história é recheada de momentos em que remamos contra toda a maré e estávamos corretos. E vencemos.

Nesta ocasião tenebrosa, tivemos de assistir o nosso presidente nos colocar em situação de coadjuvante – melhor, de figurante – numa pantomima política na qual o protagonista era o presidente do rival, que está conseguindo a proeza de enfurecer inclusive aos torcedores do próprio. Tivemos (graças a Deus, por sinal) a participação esperada. O presidente ficou num dos cantos da foto, para ser facilmente cortado nas publicações, o que efetivamente aconteceu. Confesso aqui que sempre me pus em posição de defesa do Campello no episódio obscuro de sua eleição, à custa de muitas discussões com os Vascaínos mais próximos (mea culpa, Kiko!). Esta ocasião traz a prova cabal de que eu estava errado. O Vasco da Gama não se junta ao Flamengo. Cento e vinte anos de história, desde a taça Sallutaris, nos mostram que roubado não é mais gostoso e que nossas convicções e nossa linha de conduta NÃO estão e não estiveram jamais associadas à conduta do Clube da Praia do Pinto.

É claro que não deve estar sendo nada fácil comandar a nau neste momento. Se com o futebol rolando, jogos, rendas, direitos de imagem etc a coisa já andava preta, imagine agora com tudo parado pela pandemia. A participação como coadjuvante nessa reunião com o presidente, ministros e o mandatário do rival aqui em Brasília foi a prova disso. O Vasco veio implorar que as competições voltassem a acontecer, na esteira do outro – cuja folha é infinitamente maior e cuja lista de vergonhas do ano foi incrementada com a demissão de funcionários assalariados enquanto mantem jogadores ganhando dois milhões por mês.

O resultado prático foi o pior possível. Nos alinhamos ao Flamengo contra toda a opinião pública, tivemos o jogo desmarcado, jogado para quarta feira à noite, provavelmente sem qualquer transmissão – nem PPV.

Vendemos o Marrony para o Clube Atlético Mineiro. Com todo o respeito ao clube mineiro, vítima de roubos eternos do nosso atual parceiro (que vergonha), como pode o time de Minas Gerais ter condições de comprar um jogador importante (das poucas peças que efetivamente prestam no elenco) na atual conjuntura?

Precisamos rezar para que este ano passe logo. Que esse momento tenebroso do nosso mundo passe logo, e que possamos voltar a respirar ares limpos em breve, em todo o planeta, inclusive em nosso Vasco.

O Vasco está vendendo o almoço para pagar o jantar e dando de graça a sua dignidade. Quem aos porcos se mistura, farelo come.