A Copa e o Diabo

bandeira do américa

O sonho passou tão rápido que hoje está sendo um dia estranho: nenhuma empolgante partida na televisão ou internet, mesmo que com seleções de menor porte. Pequeno intervalo da Copa rumo às quartas de final.

Para não variar, dois jogaços atípicos ontem, daqueles que nem precisam de gols no tempo normal para ser decididos. Reitero: não é uma Copa de jogadas de alto teor técnico, primor de passes, dribles interplanetários, mas sim a dos jogos disputados a cada centímetro do gramado, sempre em alta velocidade, toda a entrega e a disposição do mundo, verdadeiras arenas com leões em campo. Agradável de se ver. Emocionante. Não me iludo procurando Pelés e Gérsons dentro das quatro linhas, as  coisas mudaram.

Mais cedo, a Argentina cortou um dobrado contra o eterno ferrolho suíço, marcando seu gol a dois minutos do fim da prorrogação: Di María após o passe de… Messi, claro. Ainda teve tempo dos suíços mandarem uma bola na trave. Alguns argentinos quebraram cadeiras do Itaquerão. Padrão FIFA.

No fim do expediente, dramática vitória da Bélgica sobre o guerreiro time estadunidense: 2 x 1 na prorrogação, a turma de Tio Sam descontou no finzinho, ares de absoluta tensão. Mais um dos shows que o futebol proporcionou nesta nova Fonte Nova em Salvador, de lindas memórias e muito sofrimento também.

Então ficaram os quatro pares de confronto: na sexta, Brasil x Colômbia, França x Alemanha. Sábado, Holanda x Costa Rica mais Argentina x Bélgica.

Para o Brasil, uma prova de fogo. Por um lado, se a Colômbia fez algumas das melhores apresentações da Copa, faltou superar uma grande força. Numa análise fria, eles jogam agora, nesta semana, neste mês, um futebol melhor do que o nosso. O craque James Rodríguez, a força de Armero e Cuadrado. Por sorte, ficamos livres de Falcao Garcia. Mas será que é bom enfrentar a Seleção Brasileira em casa numa Copa do Mundo mesmo ela estando em fase irregular? Não, não é.

França e Alemanha? Pode acontecer qualquer coisa. São duas eternas favoritas, mostraram força e também enfrentaram dificuldades por aqui. Aliás, é bom que se diga: todo mundo nessa fase passou um sufoco. A Holanda sofreu com o México; a Costa Rica, sensação surpreendente da Copa, penou contra a Grécia; Argentina e Bélgica, vide acima.

Em São Paulo e Buenos Aires, os portenhos choraram, riram e fizeram procissões de amor depois da dura vitória contra a Suíça, ao contrário de uma parte dos brasileiros quando Júlio César pegou os penais e garantiu a classificação às quartas contra o Chile. Os alemães num carnaval de quatro séculos por terem superado a Argélia. É claro que estamos insatisfeitos pelo que o Brasil tem apresentado em campo, mas será que, numa Copa repleta de surpresas, ótimos jogos, disputas emocionantes e nenhum superfavorito com as bandeiras desfraldadas até aqui, não seria o caso de se dar mais crédito? Chegaram até a querer condenar Thiago Silva pelo nervosismo na hora da decisão contra o Chile. É de se imaginar o que não fariam se ele tivesse batido e perdido o pênalti, tal como já acontecido noutra Copa e com a devida suavização midiática.

Ainda temos a beleza da Copa a iluminar as cidades do Brasil. Ainda vivemos sonho e fantasia, esperando que nenhum drama nos incomode. Dois dias de sonho até a decisiva sexta-feira.

Mas nem tudo são flores no mundo do futebol: enquanto os corações e mentes só respiram Copa do Mundo, em meio ao completo ocaso do cenário do futebol local, eis que um dos times mais tradicionais do Brasil, o América do Rio, fecha as portas de sua sede em Campos Sales. O argumento é que, sob a chancela de seu corpo diretor, o prédio vai abaixo para dar vez a um shopping center, com o veterano clube ocupando a cobertura,  ganhando dinheiro e saindo da asfixia econômica. O América é uma das referências da história do futebol brasileiro e merecia melhor sorte do que essa vida nômade dos últimos anos: a primeira demolição de seu estádio em Campos Sales mesmo, 1961; depois a venda do Wolnei Braune na rua Barão de São Francisco também para a construção de um shopping; a mudança para Édson Passos, o afastamento físico e espiritual dos tempos de glória. Surgirão outras depois?

@pauloandel