Comemorando os 80 anos de um título

Em março de 1937, o Vasco ganhava o Campeonato Carioca de 1936.

Neste ano, estamos comemorando 80 anos da competição mais charmosa do Rio de Janeiro. O Vasco lutava por retomar a hegemonia estadual depois de perder os seus maiores ídolos (Domingos, Fausto e Leônidas). A grande contratação era o veterano atacante paulista Feitiço, que terminaria como artilheiro do clube (9 gols). Na final da competição, (disputada em 1937), o atacante, mesmo enfrentando a zaga chamada “o Terror dos Subúrbios” (formada por Cachimbo, o “Golias Negro” e Norival), marcaria os dois gols da vitória sobre o Madureira (o Vasco vence por 2 a 1).

Eram tempos de divisão no futebol carioca, com dois campeonatos disputados pelos principais clubes. De um lado, Vasco e Botafogo pela Federação Metropolitana de Desportes (FMD), de outro, Flamengo, América e Fluminense pela Liga Carioca de Futebol (LCF). Para os vascaínos, uma conquista significava impedir uma consagração dos alvinegros, que almejavam o pentacampeonato (32-33-34-35 e 36). O ataque alvinegro intimidava com Russinho (ex-ídolo do Vasco), Leônidas da Silva, Carvalho Leite (artilheiro de vários campeonatos) e Patesko. Curiosamente a final do campeonato carioca não teve a presença do Botafogo, que foi suplantado pela Madureira, equipe do subúrbio carioca que faria a final com o Vasco numa melhor de três partidas, sendo que a última só seria disputada em 14 de março de 1937. As duas primeiras, disputadas em dezembro de 1936, terminaram com uma vitória para cada lado.

Foi o último título do Vasco na década de 1930 e também de uma geração comandada pelo inglês Harry Welfare, ex-jogador do Fluminense e treinador do Vasco durante os anos de 1927 até 1937 (vencedor em 1929, 1934 e 1936). Nestes anos, o epíteto de “campeão de TERRA e MAR” nunca fez tanto sentido. No remo, o clube conseguiu o domínio absoluto. Entre 1929 e 1939, o Vasco só não venceu em 1933.

Voltando ao campeonato de 1936, no primeiro turno, a surpresa foi o São Cristovão, que disputa a final com o Vasco. O clube alvinegro não podia ser considerado uma agremiação de menor expressão para os padrões da época, pois havia realizado alguns bons campeonatos, já tinha sido campeão em 1926, e revelado grandes jogadores. Tinha um elenco forte, com destaque para Afonsinho, Carreiro e Roberto, integrantes da futura seleção brasileira que disputaria o Sul-Americano na Argentina, no final de 1936 e início de 1937, e o campeonato mundial na França, em 1938. Além disso, tinha o seu próprio estádio, na rua Figueira de Mello e uma fiel torcida.

Mas a grande novidade no futebol carioca de meados dos anos 1930 viria com a afirmação de um clube que chegara a primeira divisão em 1935 e que trouxe uma nova dimensão para o futebol carioca da primeira divisão com a ascensão de clubes dos subúrbios. Era o Tricolor Suburbano, o Madureira, fruto da iniciativa de comerciantes da região. Cabe lembrar que o Bangu, da Zona Oeste, já havia vencido recentemente em 1933.

Eram tempos em que as torcidas de bairros eram fortes e aguerridas. Os clubes chamados de grandes ainda não tinham o domínio absoluto na paixão dos torcedores, o que foi se consolidando nos anos seguintes, com o crescimento do radio esportivo e o fortalecimento econômico dos clubes mais ricos – que retiravam dos clubes de subúrbio os craques que despontavam. O próprio Madureira, em 1942, forneceu um trio de ouro para o Vasco: Isaías, Lelé e Jair.

No clube do Andaray, jogava na zaga Dondon, que depois seria homenageado pelo cantor Dudu Nobre em um samba. Já o atacante Arubinha, que ainda não participava do elenco principal, seria personagem de uma famosa lenda do futebol carioca ao “enterrar um sapo no estádio de São Januario” em 1937.

Bangu e Olaria foram os outros clubes que disputaram o campeonato, sem muito brilho, levando sucessivas goleadas dos seus adversários.

O ano de 1936 para o Vasco

A construção de São Januário deu uma outra dimensão ao clube, que pôde desfrutar de um estádio com uma sede social capaz de realizar vários eventos durante todo o ano. Um exemplo, que pode causar espanto nos dias atuais, era a comemoração de réveillon, como destaca a Revista Domestica, de fevereiro de 1936, com as fotos de dezenas de sócios que viraram a noite com “dansas que prolongaram-se até as quatro horas da madrugada”.

Em 1936, o Vasco receberia em São Januário a excursão de dois clubes da Argentina, que disputaram três amistosos contra o Huracán (2 vezes) e o Estudiantes de La Plata. Era uma tradição dos cariocas receber visita dos argentinos no início de cada temporada, assim como foi feito em 1935, com a primeira visita ao Brasil do River Plate e do Boca Juniors. Pouco depois, os vascaínos fariam uma longa viagem por Pernambuco e Bahia (ficando neste dois estados por dois meses). O campeonato carioca só começou a ser disputado no segundo semestre, mais precisamente no dia 5 de julho.

Pouco antes do campeonato, chegava ao Rio de Janeiro a maior contratação do Vasco para aquele ano: “Feitiço, com quase 35 anos, desembarcou no Rio para defender o Vasco, depois de três temporadas no Uruguai. Logo na estreia marcou dois gols, em um amistoso em que o Vasco venceu o Botafogo por 3×0, em maio”. Logo seria convocado para defender a seleção carioca, que desta vez ficou em terceiro lugar no campeonato brasileiro de seleções estaduais. Marcaria três gols nesta competição.

Feitiço tinha estrela e personalidade forte. Não se intimidava com os adversários dentro ou fora do campo. Ficou famosa sua resposta, em 1927, ao Presidente da República, Washington Luís, que presente a São Januário para ver a disputa entre as seleções carioca e paulista, mandou que os paulistas deixassem os cariocas cobrar o pênalti. O atacante respondeu de pronto: “Diga ao presidente que ele manda no país. Na seleção paulista mandamos nós.”

Entre as estrelas da equipe estava o goleiro Rei, aclamado pela torcida feminina e primeiro galã de nosso clube. Outro destaque era o zagueiro Itália. Além do Vasco, o jogador “foi titular da Seleção Brasileira na Copa de 1930. Pela Seleção, conquistou também a Copa Rio Branco, no Uruguai, em 1932. No Vasco, foi campeão carioca em 1929, 1934 e 1936 e tetracampeão do Torneio Início, em 1929, 1930, 1931 e 1932”. Outro destaque era Zarzur, meio campo que marcou época entre os cruzmaltinos, sendo titular absoluto entre 1935 e 1942. Formou, com o uruguaio Figliola e o argentino Dacunto, uma das linhas médias mais populares do clube, conhecidos como os “Três Mosqueteiros”.

Na lateral esquerda, atuava o argentino Calocero, que tinha como reserva o uruguaio Marcelino Perez. Outro jogador argentino que jogava no time era o atacante Kuko. Foi uma tradição entre meados dos anos 1930 e 1940, a contratação de vários jogadores sul-americanos. O fenômeno ficou conhecido como platinismo.

Para o ataque, além de Feitiço, o clube contava com Luiz de Carvalho, ex-ídolo do Grêmio, que chegou ao Vasco numa novidade do marketing esportivo da época. Uma empresa gaúcha de vinhos contratou o jogador para o Vasco em troca de publicidade da bebida no Rio de Janeiro (RIBEIRO, 2010).

Na época, os torcedores já se organizavam para levar uma faixa para todos os estádios: “Com o Vasco, onde estiver o Vasco”. Entre os torcedores vascaínos que comandavam os gritos de guerra, o mais destacado, em 1936, era Afonso Silva, conhecido como Polar. Assim ele é descrito pelo Jornal dos Sports: “é uma das figuras que mais se impõem no seio do grande grêmio da Cruz de Malta. Dedicado, a frente sempre das iniciativas que visam o crescimento da admiração em verdade votada ao Vasco. Afonso Silva, já é uma tradição entre os Vascaínos”.

Este foi o último título vascaíno antes da formação do “Expresso da Vitória” nos anos 1940. Foi em 1937 que surgiu a lenda do “Sapo do Arubinha”. Entre os anos de 1937 e 1944, a maldição atormentou nossa torcida.