Clássico sim!

flu vasco 1981

Contra a vontade da imprensa esportiva marrom – somente esta -, Fluminense e Vasco se enfrentam nas semifinais do campeonato carioca. Por ela, os dois e o Botafogo deveriam ser extintos. Alguém saberia explicar o porquê?

Haja o que houver – e sinceramente eu espero dois bons jogos, justos e sem trapalhadas da arbitragem -, não há dúvidas do cardápio final: caso a Cabofriense não consiga fazer uma graça, o “maior time do sistema solar” terá como adversário na final ou o “eterno vice” ou “o time que roubou pra não cair”. Tudo entre as devidas aspas por se tratar de mundo da mentira jornalística.

Por mais que o Flu tenha a chamada vantagem do empate, ela é insignificante numa decisão entre dois clubes grandes: qualquer gol e o benefício vai para o brejo. E se o Vasco parece ligeiramente melhor no conjunto dos últimos dias, talvez – mesmo – o Tricolor tenha mais jogadores que possam decidir individualmente. Mas apenas em tese: a prática é outra.

Pesa também – não riam nem chorem – a recente freguesia do Flu nos confrontos contra São Januário, basicamente nos últimos 20 anos cravados. Se o Vasco fizesse contra a Gávea tudo o que faz contra o meu Fluzão desde 1993, eu seria um homem bem mais feliz.

Voltando aos bastidores, incrível que um clássico decisivo com dois times de alcance nacional seja jogado para a TV fechada na quinta-feira, enquanto o “maior time de Júpiter” é a estrela (mais uma vez) das quartas-feiras. Não há argumento racional quanto a isso, nem mesmo o de “incentivar o público a comparecer” – a verdade é que mesmo por conta da grana e do horário, há quem vá esperar o que acontece na quinta para resolver se compra o ingresso de domingo.

Mas seria muito bom que fosse casa lotada. O Maracanã e o futebol precisam disso. Há quase oito meses o estádio foi reaberto e, até agora, não teve um clássico de causar a festa que as arquibancadas merecem, feito os de 80 (no primeiro turno e na final, jogaços de tirar o fôlego), 84 (a grande final do Brasileirão), 1993 (uma final conturbada e emocionante) e 2003 (idem). O Vasco ganhou, o Fluminense ganhou, a história ganhou. Não existe futebol sem o outro, não existe futebol sem torcida.

Agora, se me perguntarem qual foram os grandes jogos que vi neste clássico nos últimos 36 anos, não hesito em cravar: um no ano de 1981, o outro em 1989. Não foram partidas aonde o vencedor chegou ao título, mas disputas marcantes e que ficaram para sempre na memória. Ambas por campeonatos brasileiros.

Em 1981, pelas oitavas de final, o Vasco venceu o primeiro jogo por 2 x 0. Era favorito para o domingo. Ao Flu, só restava fazer 3 x 0 – conseguiu no primeiro tempo, numa atuação demolidora. Depois do intervalo, numa jogada aguerrida na área, o atacante César (pai de Júlio César, atual lateral-esquerdo do Botafogo) descontou. A partida pegou fogo – o Flu querendo o quarto gol, o Vasco precisando do segundo que fosse ducha de água fria no adversário. Os dois leões soltos na arena. Perto do fim, César fez outro – era um jogadoraço, o time todo aliás. Sabíamos que não ia dar mais. O Vasco se classificou. No fim da partida, as duas torcidas aplaudiram o espetáculo. Quase 33 anos depois, penso nisso como se fosse ontem.

Flu 3 x 2 pela Copa União de 1988, jogado em fevereiro de 1989. O Vasco era o melhor time do campeonato e jogava com vantagem. Na primeira partida, Flu 1 x 0, gol de Zé do Carmo contra – depois, meu amigo Xuru foi tomar satisfações com o volante em plena Bella Blú da Siqueira Campos, em Copacabana. O Flu passou a jogar pelo empate na partida da quarta-feira seguinte. De saída, fez 1 x 0 com belo – e estranho – gol de Donizetti. Depois o Vasco igualou num golaço de Bismark, depois de lindo passe do atual presidente. Um segundo tempo de rachar, o Flu com um a mais em campo: Célio Silva tinha sido expulso. No finalzinho, Wright marca uma incrível obstrução dentro da área cometida por Edinho, 21 jogadores na pequena área, Geovani cobra e o zagueiro Leonardo faz outro golaço – desta vez de cabeça. Aí veio a prorrogação, os dois times lutando como leões, o Flu fez 1 x 0 com o jovem Zé Maria e, mais tarde, outro golaço: Washington encobrindo Acácio. No fim, o meu time não conseguiu ser campeão, mas o confronto deste 3 x 2 teve a emoção de um título.

O Flu precisa muito do Carioca 2014 para se reabilitar dos ataques da imprensa marrom. O Vasco também, para consolidar seu caminho de lutas neste ano. Que seja então um grande duelo, preferencialmente sem violência entre as torcidas.

E que em 2047, a garotada que veja os jogos desta semana tenha lembranças inesquecíveis como as que eu tive – e que me trouxeram até aqui.

Você pode ser campeão, você pode não ser; o amor é outra coisa – ele atravessa os tempos e voa rasante.

Grande abraço

@pauloandel