Brasil 1 x 7 Alemanha

brasil 1 7 alemanha

Neste momento, depois de horas de agonia e dor, milhões de brasileiros estão em seus empregos, depois de terem encarado toda a deficiência dos transportes públicos. Nos hospitais, doentes de morte e vida choram o precário atendimento. Nas ruas, mendigos de todas as idades sofrem. Existe tráfico, estupro, violência, rancor. Muito se fala da corrupção política, mas bem pouco dos interesses por detrás dela, aliados ao poder econômico. Triste e terrível, assim como a hipocrisia – mal do século.

Mas também há um Brasil que aos poucos, começa a olhar para si mesmo, entendendo que é preciso acabar com a prática de segregação de brasileiros por brasileiros, seja por naturalidade, renda, cor, opção sexual, índice de massa corporal. São passos lentos, mas não me cabe aqui esperar nada além, tendo em vista os séculos anteriores de indiferença a tais causas.

E há o Brasil do campo, o que conquistou cinco Copas sensacionais, perdeu a de 1950, a de 1998 e esta de ontem, depois do maior desastre em campo de sua história.

Mesmo com 36 anos de futebol ininterruptos, estou longe da petulância de tentar explicar ou justificar o que aconteceu ontem nos 7 x 1 sofridos frente à impecável Alemanha. E mais longe ainda dos oportunistas mesquinhos de plantão, capazes de beber o sangue da mãe em busca de audiência ou do título de senhores ocos da verdade suprema, acusando a tudo e todos como se o Brasil ter chegado (mais uma vez) às semifinais de Copa do Mundo fosse um lixo. Há quem diga: “Eu já sabia”. Não é verdade: nem mesmo o maior pessimista deste país poderia prever o que aconteceu ontem no Mineirão.

Horas atrás, só pensei em bom senso. Continuo pensando.

O que posso tentar dizer é que aconteceu um desastre.

Penso no improvável Buster Douglas nocauteando Tyson, embora a Alemanha tenha feito uma partida fantástica – o que quero dizer é da circunstância.

Até o primeiro gol, era o Brasil quem agredia e atacava. Veio o escanteio, a bobagem, os germânicos marcaram, o país virou silêncio. Sabíamos estar diante de uma seleção muito forte. O segundo ataque, o segundo gol. Caos. Nos dois primeiros, Júlio César vacilou, mas não merece ser crucificado – e a imprensa calhorda prefere colocar a culpa em Fred. Reparem que o terceiro, golaço, surgiu porque Klose deu uma furada incrível e, com isso, fez involuntariamente o corta luz que espatifou de vez a defesa brasileira. O resto que virou massacre foi consequência desses três momentos e da pane coletiva do time brasileiro, aliado à descomunal força alemã em campo.

Embora em futebol quase nada seja impossível, não temos mais Pelé em campo, nem Garrincha, nem Didi ou Nilton Santos. Os tempos são outros. A Alemanha, metódica, contundente, implacável, entrou em nossa área tabelando e fez 5 x 0 numa goleada avassaladora, um tsunami de bola. Jogou como jogávamos no passado. E em pouco tempo a Seleção Brasileira sofreu o maior massacre de todos os tempos. Nenhum monstruoso Neymar resolveria individualmente, nenhum gigante Thiago Silva resolveria a defesa – batemos cabeça enquanto eles tocavam a bola. No segundo tempo, quase constrangidos pelo estragar da festa, os alemães ainda fizeram o sexto e o espetacular sétimo – contra o qual não há tática, craque, esquema, planejamento e psicólogo que evitasse, basta rever.

Quero ser digno e reconhecer que levamos um banho de bola como nunca, mas tenho dúvidas se isso é coisa de acontecer duas vezes num século, não pela força dos alemães, mas pelo roteiro em si. Não estarei aqui para isso; quem puder, confirme.

Será tão difícil assim entender que, por mais que sejamos os mais vitoriosos na história da Copa do Mundo, a Alemanha é também gigantesca e fez uma das melhores partidas de sua história ontem? Será que vamos repetir as besteiras de 1982, desmerecendo a Itália de Zoff, Scirea, Cabrini, Tardelli, Bruno Conti, Altobelli, Paolo Rossi e tantos outros craques? Ou a França de Tigana, Platini, Fernandez, Giresse e, claro, Joel Bats? A outra França de Zidane, Djorkaeff, Vieira, Deschamps, Henry. Prefiro ser humilde, pensar em nossos equívocos, mas também que tínhamos na tarde de ontem um adversário que ali,  exatamente ali, foi infinitamente melhor do que o nosso time a partir do 1 x 0.

Ao final do jogo, depois do réquiem de Oscar descontando, muito silêncio nas ruas e também brigas no centro do mundo – Copacabana. Felizmente a tristeza de um país não se repetiu no mar de suicídios do Maracanã em 1950. E também felizmente os jogadores, depois dessa derrota incontestável, terão suas vidas bem continuadas: a maioria joga na Europa, com ótimos rendimentos e ninguém vai passar a abominável miséria de Juvenal, por exemplo. Mais de seis décadas depois, cabe a reflexão de como pudemos ter sido tão escrotos, tão desumanos com Barbosa, Bauer, o próprio Juvenal, Bigode, Ademir, Zizinho, todo o fantástico escrete de 1950. Como pudemos ter sido tão imbecis? A dor da derrota é inevitável, mas o futebol em si e a vida são muito mais do que isso.

Os jogadores e a comissão técnica que aí está são os mesmos que, a duras penas e de forma opaca, levaram o Brasil a figurar novamente entre os quatro do mundo, o que não acontecia desde 2002 e que foi além das grandes conquistas de outros ex-jogadores, tão incensados pela grande mídia. Erros, muitos, aconteceram, mas nada que justificasse esses 7 x 1 mais do que inesperado, sinceramente impensável a priori.

Ontem no Centro, perto da nova Petrobras, cerca de sete e meia da noite, eu caminhava com minha namorada quando vi dois garotinhos jogando bola, ambos vestidos com a camisa amarela número 10. Os gols eram dois cones. O único expectador solitário da partida infantil era um sofrido morador de rua. Ali entendi que o futebol é imortal, o espírito da Copa e do futebol em si. Metros adiante, adultos choravam as mágoas no fim de um churrasco.

Triste demais ter visto a Seleção perder da maneira como perdeu. Mas o Brasil não tinha a obrigação de ganhar a Copa do Mundo: nenhum time tem essa imposição em qualquer competição que dispute. A obrigação do nosso país em 2014 era o de realizar a Copa, e isso aconteceu de forma perfeita, inconteste, calando os derrotistas que previam o caos e a desorganização do evento – ele não acabou, ainda terá pelos menos dois jogos incríveis (deixo a disputa do terceiro lugar de fora por motivos óbvios) e sua realização é motivo de orgulho para os brasileiros. É o que penso.

Os alemães foram perfeitos, absolutos, supremos. Estão na final com todos os méritos do mundo.

No infinito, Barbosa vive. Ele dispensa hipocrisias.

@pauloandel

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