Bate outra vez

IMG_20150503_164716

Começar de novo, trocentos jogos até os primeiros dias de dezembro. Quartas, sábados, domingos, manhã, tarde, noite.

Fui dos que apoiaram à época o sistema do campeonato brasileiro de pontos corridos.

Mudei de ideia, não pelo formato em si, mas pelo universo peculiar do nosso futebol.

Primeiro, porque num país grande como o Brasil, ter apenas 20 equipes, sendo mais da metade concentrada em três das 27 unidades da Federação é um sintoma de distorção. A verdade é que copiamos a fórmula do Campeonato Italiano, sendo a simpática “Bota” do tamanho do Rio de Janeiro. E o resto? E a representatividade?

Segundo: o aspecto profissional, que deve andar junto com o técnico. Futebol vive de paixão, público e audiência. Algumas das maiores torcidas localizadas do país não estão na série A, o que muitas vezes faz com que públicos da B, C e da Copa do Nordeste e da Copa do Brasil sejam muito mais expressivos do que o da mais badalada disputa nacional. Afeta a audiência e o público nas arquibancadas.

Terceiro: salvo exceções honrosas, caso dos anos de 2009, 2010 e um pouco de 2011, o Brasileirão ficou encaminhado e decidido muito antes de seu final. Em consequência, mais queda de audiência, esvaziamento, desinteresse de parte do público alvo. Vira vulgar, lugar comum, desimportância. Por mais que o Carioca seja desastroso em alguns aspectos, dificilmente em dezembro teremos a vibração num jogo decisivo como aconteceu domingo passado, por ocasião do título vascaíno. A badaladíssima e decantada Champions League tem mata-mata e decisão.

Outra ilusão: jogos entre grandes times brasileiros de praças diferentes serem equiparados aos clássicos regionais. Dificilmente dois da mesma cidade ou estado têm decidido algo empolgante, ao menos no Brasileiro. Copa do Brasil teve Atlético e Cruzeiro ano passado. Uma vez ou outra. A magia dos clássicos brasileiros foi amparada nas rivalidades locais. Por mais que aconteça no fim do ano um jogo decisivo do Vasco contra o Grêmio ou o Santos, por exemplo, ele jamais terá o apelo de adversários como Flamengo, Fluminense e Botafogo.

Fala-se de marketing, gestão, austeridade fiscal, responsabilidade, modernidade. Mas os jogos enfadonhos, terminando à meia noite no meio de semana, continuam. Onze da noite de sábado, idem. Por dinheiro, inverter mandos de campo e perder-se a essência competitiva é normal.

Dizem que agora os clubes devedores de salários serão punidos.

Cheguei até aqui e não falei de nenhuma  grande contratação ou revelação do nosso futebol. Tal ausência diz mais do que toda a propaganda do mundo.

Alguém vai dizer: aponte uma fórmula melhor. Não tenho a pretensão de ser o dono da verdade. Sou apenas um torcedor que gosta de futebol que acompanha seu time e os rivais, achando chato o novelão que se arrasta por seis meses até um final nem sempre empolgante. Não tenho a receita ideal; apenas acho a atual um bolo chocho.

O Brasileiro aponta com justiça o rebaixamento dos clubes? O ano de 2013 com a incrível coincidência André Santos-Heverton, mais o arroubo da partida em Joinville, demonstra que, no mínimo, tal argumento é discutível.

Continuamos torcendo. É o caminho. O futebol é uma das válvulas de escape da opressora vida cotidiana. Mas torcer não precisa significar subserviência nem docilidade diante de febeapás ou sambas do crioulo doido.

Enquanto isso vamos em frente. Pequenas doses de cachaça futebolística para nos esquecermos da corrupção, das gangues da faca, das mortes por balas perdidas, da miséria, da indiferença. Nem que seja em frente à tevê, o que é muito bem visto pela dona do espetáculo.

E a FlaPress do diário Lance!, hein? Fica para a próxima.

@pauloandel

Imagem: pra