A batalha que não havia terminado

Eram veias abertas de muito, muito tempo atrás. A papelada de 1982 pegou muito mal quando Alemanha e Áustria tocaram mil bolinhas para o lado, eliminando a Argélia numa manobra desprovida de ética na Copa da Espanha. Isso explica muito do jogo de ontem. Com a derrota da Nigéria para a França por 2 x 0 no jogo da  tarde, os africanos deram adeus ao campeonato – de forma digna, claro.

Claro que a Alemanha foi e é superior tecnicamente, tricampeã mundial que é. Por outro lado, ressalte-se que há muito tempo o futebol não oprime adversários apenas pelo rigor técnico ou a camisa ou a tradição. Daí que o que parecia uma barbada para muitos formadores de opinião transformou-se em vigorosa carne de pescoço para os germânicos.

Foi comovente ver a seleção da Argélia disputando cada milímetro do campo, correndo, brigando, lutando contra um adversário fortíssimo e também contra suas naturais limitações. Jogou de igual para igual os noventa minutos, quase venceu. Por ironia, foi esse tempo de jogo impecável dos argelinos que explica a sua eliminação: quando foram para a prorrogação, estavam fisicamente extenuados enquanto os alemães sobravam, a ponto de conseguirem seus dois gols – o último, já no apagar das luzes. Mas a garra argelina foi tamanha que, mesmo com 2 x 0 contra, ainda conseguiram descontar num golaço que praticamente encerrou o jogo. Estavam mortos, arrastavam-se, mas, se preciso fosse, talvez continuassem em campo a noite inteira.

Sorte da torcida brasileira que prestigiou a partida: viu um dos confrontos mais disputados de toda a Copa. Grande que é, lá vem a Alemanha outra vez brigando pela taça do mundo. Mas é bom que se diga: cortou um dobrado para vencer a  luta comovente dos argelinos, que foram gigantes e não deixaram nada a dever a quem já cansou de dar voltas olímpicas mundiais.

E se todos falavam da Alemanha, o curioso é que a França tem passado bastante tímida nas manchetes até aqui. O pessoal estava desatento. Sexta-feira esse será o jogão do Maracanã, antes do ansiado Brasil x Colômbia. Pouco tempo para o descanso de franceses e alemães. A chamada escrita das Copas do Mundo aponta a supremacia germânica contra os azuis. Mas quem disse que nessa Copa de 2014 isso tem alguma valia?