Assalto sem boxe

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Sexta-feira passada, tive a oportunidade de assistir ao vivo o programa “Fim de expediente” da Rádio CBN, capitaneado pelo ator Dan Stulbach, ao vivo no CCBB-RJ, com a presença do ídolo vascaíno Juninho, denominado Pernambucano por causa de seu homônimo paulista.

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Descontados os problemas de som para os expectadores in loco, afora um ou outro caboman metido a superstar, excelente ver a lucidez do ex-jogador no decorrer da entrevista: respeito aos adversários, ex-companheiros, a seleção de 2006, os grandes jogadores que viu atuar quando criança e o futebol em geral.

Muito interessante quando falou a respeito de suas vivências e sentimentos nas fases de sua carreira: o começo no Sport, a apoteose no Vasco, o sucesso em Lyon e a volta a São Januário. O carinho que sente pelos times, a dedicação com que vestiu as camisas, as grandes lembranças.

Em dois momentos, abordagens muito legais. No primeiro, o fato dele comemorar gols contra times cuja camisa já tinha vestido, recebendo muitos aplausos ao dizer do respeito que o jogador tem que ter com sua camisa em vigor. No segundo, o fato dele jamais ter se adaptado à condição de ídolo como sendo alguém especial e “acima”, já que todos são iguais.

Provavelmente Juninho voltará ao Lyon para trabalhar fora das quatro linhas. Mas é fundamental tê-lo no futebol brasileiro. Num país ainda mambembe em termos dirigenciais, executivos e à beira do campo, Juninho é um dos caras que pode ajudar e muito o Vasco e o futebol brasileiro a voltarem para seus trilhos de origem.

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Os companheiros daqui certamente já falaram melhor do que eu poderia a respeito do clássico de domingo passado.

Mas não poderia deixar de fazê-lo, mesmo sendo de outra arquibancada que não a respeitável cruzmaltina.

São 36 anos ininterruptos nas arquibancadas do Maracanã, exceto quando este foi fechado para suas infindáveis obras.

Eu vi tudo de perto: o ladrilheiro, o pênalti com Vitor de costas, a farsa dos vices, as papeletas.

Mais uma vez, o que chama atenção está nas entrelinhas, nas coincidências.

Justamente quando mais precisava de três pontos para evitar o início de uma crise em plena Libertadores (onde tem sido um figurante nos últimos 33 anos), eis que a Gávea contou com o incrível equívoco da arbitragem no legalíssimo gol de falta que abriria o marcador a favor do Vasco. O fiscal da linha de fundo, a dois metros do lance, permaneceu imóvel como se nada tivesse ocorrido.

Que sorte! Que azar!

Esse lance contaminou toda a partida. O primeiro gol do Vasco na verdade foi o segundo; daí, mesmo com o desconto rubro-negro a seguir, desceria vitorioso para o vestiário e teria um segundo tempo diferente em termos de perspectiva. Fez os primeiros 45 minutos de forma esplêndida e poderia ter aplicado uma goleada, não fossem as finalizações vacilantes.

Na etapa final, o Vasco tentou, lutou ainda mais, mas foi refém do físico. Acabou com um injusto final de partida. Muito injusto.

Nos últimos meses, o que mais se discutia nas inflamadas manchetes dos jornais era o conflito entre o legítimo e o legal, via caso STJD (devidamente abafado quando os interesses mais-queridos foram ameaçados). “Vale o que acontece no campo.”

Será?

No campo, o Vasco fez dois gols legais, limpos e honestos. A arbitragem se esqueceu de validar. Por coincidência, mais um erro crasso contra São Januário e a favor da Gávea e do sr. Bandeira de Mello, sempre a atestar a própria vergonha na cara.

Não houve boxe no Maracanã, mas a partida de domingo terminou num assalto.

É que aquela tal vergonha na cara tem uma amplitude deveras elástica.

Quem perdeu domingo, mais uma vez, não foi o Vasco, mas sim a ética no futebol. A mesma que desafia a incrível coincidência Gávea-Canindé.

Incrível, não: incríveis coincidências, sempre favoráveis ao time mais sortudo do mundo. Verdadeiro desafio à ciência.

@pauloandel