A apoteose da mediocridade

Todo ano, por alguns dias o Brasil se torna o país que deveria ser: ficam de lado os totalitarismos ocos, as vaidades pueris, a diversidade impera e o Carnaval desfralda suas bandeiras Pindorama afora.

O brasileiro médio finge não ser hipócrita, excludente, preconceituoso, sectarista, indiferente ao meio e, para os olhares menos atentos, somos um Brasil unido e festivo.

No futebol, não poderia ser diferente. Todos ao samba!

Desta vez, não inventaram jogo no sábado de Carnaval no Maracanã, até porque a própria Federação faz pouco caso do palco principal do futebol brasileiro, preferindo os Los Larios e Bacaxás da vida. A próxima rodada começa na quarta-feira de cinzas, depois de grandes blocos, desfiles, axé, azaração e la dolce vita. A vida continua e voltamos a nos deparar com nossos demônios – ou o tigre e o leão atravessando a rua, diria Tom Wolfe.

A grande festa do Carnaval no futebol carioca poderia acontecer no outro domingo, dia 22, ainda com o verão a mil: o primeiro clássico desse ano, Fluminense x Vasco. Não acontecerá: devido ao pequeno espírito público e à falta de visão profissional, o parcialmente interditado Engenhão receberá, se muito, 20 mil torcedores – com os dois times no alto da tabela seria fácil supor uma festa com 50 mil pessoas no Maracanã lotado. A patética decisão não alijou apenas tricolores da partida, mas vascaínos também. A mediocridade agradece.

Não preciso ser vascaíno para respeitar a grandeza do Vasco. Há 37 anos, comecei a ver do outro lado da arquibancada o grito imponente de “Vascoooooo”. Na parte que me cabe, vi grandes vitórias, dolorosas derrotas, grandes jogos e um deles com as duas torcidas aplaudindo de pé.

Não me interessa discutir o lado certo ou errado, o mando de campo ou o diabo que carregue. Minha indignação é saber que meu adversário admirado não estará do outro lado no tamanho devido, num clássico de casa cheia, por conta de interesses muito menores do que a tradição de um jogo que caminha para seu centenário.

Sou do tempo em que os clássicos eram vistos por 100 mil pagantes. O mundo mudou. Ter 50 mil já seria ótimo. A apoteose da mediocridade imporá 15 mil, se muito.

Pode ser tudo, menos profissionalismo.

@pauloandel