Almir, o Pernambuquinho

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Ele foi um dos mais importantes jogadores do futebol brasileiro, numa época em que simplesmente havia jogadores do quilate de Didi, Nilton Santos e Pelé – não à toa, foi apelidado de “Pelé Branco”. E pertence a uma longa linhagem de jogadores que vieram do Sport do Recife para o Vasco, onde atuou ao lado de Belini, Orlando Peçanha e Vavá. Depois disso, jogou na Argentina, foi campeão do mundo jogando pelo Santos, arrumou uma das maiores confusões de todos os tempos no Maracanã pela final do Carioca de 1966.

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Não bastasse currículo tão intenso, em depoimento ao jornalista Fausto Neto, publicou o livro “Eu e o futebol”, revelando bastidores inéditos do esporte, tais como a exploração dos jogadores, as armações, o uso de drogas e muito mais. Ainda é uma publicação sem par no futebol brasileiro, tanto pelo teor quanto pela época de lançamento – a ditadura de Médici em 1973, dois meses depois da morte do próprio Almir.

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Em texto do jornalista Mário Magalhães, publicado em 1993, lê-se o seguinte:

“Vinte anos depois de sua morte numa briga de bar, o jogador Almir Moraes Albuquerque, o Almir Pernambuquinho, foi esquecido no Rio. Os rastros da sua passagem por Copacabana, onde viveu em períodos intercalados nas décadas de 1950, 60 e 70, foram apagados.

Ao chegar ao Vasco em 1957, vindo do Recife, Almir foi morar no bairro onde a bossa nova nasceria. Aqui, inventou o futevôlei no fim dos anos 1960, rememora seu amigo de infância e confessor Fausto Neto. Num bar da avenida Atlântica, à beira-mar, assassinaram-no na madrugada de 6 de fevereiro de 1973.

“Só saio de Copacabana atrás de muito dinheiro ou morto”, costumava bravatear. Morreu como jogava, violentamente. Na antologia do esporte, Almir é o maior brigão da história do futebol brasileiro. Quebrou pernas, enfrentou no braço times inteiros e, com fúria e coragem, empurrou o Santos à conquista do bicampeonato mundial, em 1963.

Estaria completando 56 anos. Os vinte de sua morte passaram em branco. “A memória do país é assim”, lamenta o padrinho de Almir, o ex-jogador Bellini. “Sua memória no Rio se apagou”, confirma o jornalista Fausto Neto. “Uns poucos ainda falam dele nos botecos da rua Miguel Lemos”, conforma-se o cronista esportivo Hans Henningsen, espanhol celebrizado por Nelson Rodrigues como Marinheiro Sueco. Hans encontrava-se com Almir no Bar do Nicola, na rua Constante Ramos. Almir bebia cerveja. Um habitual vizinho ilustre de botequim, Nelson Rodrigues, só tomava cafezinho e água.”

“Eu fui um marginal do futebol.”

(Autodefinição sincera.)

“Dei-lhe [no goleiro Ubirajara, do Bangu] um soco no estômago. Ele caiu e se levantou logo para revidar, enquanto Ari Clemente me dava um soco. Eu estava cercado de jogadores do Bangu, mas fui enfrentando todos eles: um pontapé num, um soco noutro, uma corrida em cima do outro, até que todo mundo entrou na briga (…) Eu estava uma fera (…) Ia dando cacete em quem encontrava.”

(Sobre a final Flamengo x Bangu do campeonato carioca de 1966.)

“Amarildo vinha sassaricando, queria impressionar o público, estava naquela de mostrar que era o Possesso, apelido que ganhou na Copa do Mundo de 62. Mas possesso ali era eu. Corri em diagonal na direção dele, avisei ao Ismael e ao Mauro para fazerem a cobertura, disse logo que aquele era meu. ‘Deixa esse filho da mãe comigo! Agora ele vai ver!’ Foi um toco só. Ele caiu se contorcendo.”

(Sobre a final Santos x Milan, do Mundial de 1963.)

O fim de Almir de certa forma foi uma síntese de sua vida. Jantando em Copacabana ao lado da esposa e amigos, viu alguns dos integrantes do conhecido grupo Dzi Croquettes serem ofendidos por um grupo de portugueses na esquina badalada da rua Francisco Sá com a avenida Copacabana. Partiu para cima dos lusos (embora muitos o tivessem como homofóbico, Almir era muito amigo dos Dzi). Em resposta, levou uma bala na cabeça. Uma trapalhada policial permitiu a fuga dos portugueses do Brasil, o inquérito não deu em nada e hoje, mais de 40 anos depois de sua morte, Almir ainda é um tema interessantíssimo para se entender o futebol, a sociedade e o cotidiano de toda uma época brasileira.

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