Ainda sobre Jorge Nunes

balanço

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Raras vezes o rádio teve alguém tão espontâneo, divertido e comunicativo no Rio de Janeiro. Divertido, ácido, popular, hiperativo, Jorge Nunes era a versão real de um futebol e um Maracanã de outros tempos, onde o povo tinha vez. Um Maracanã da geral, de cachorro-quente Geneal, de gente humilde andando de chinelos ou até mesmo descalça. Um Maracanã de cem mil pessoas em qualquer clássico.

Ao mesmo tempo que sacaneava todos os times, inclusive o seu Vasco, Jorginho tinha uma lucidez no futebol capaz de reduzir os atuais engomadinhos de certos estúdios a pó. Na maior parte do tempo, um personagem divertidíssimo que escondia bem seu passado de lutas, esforços, sacrifícios e muita solidariedade – o que ele jamais permitiu publicidade. Um grande cara.

Eu mesmo me envolvi num dos mais divertidos episódios de Jorginho na TV: “Vovó da Cruz Vermelha” (eu lançando meu livro, o Jorginho fazendo mil sacanagens e, nos intervalos da transmissão, dizia “Hoje você não vai ter moleza aqui não, vizinho”; respondi “Se eu fosse você, não faria isso”). Depois nos abraçamos pela última vez, rimos, o tampinha me disse: “Pô, gordinho, perdi!” – quantas vezes conversamos na rua e sempre alguém vinha abraçá-lo também.

Pensar em quanto meu pai ria com as tiradas dele no rádio. Em quanta felicidade e alegria espalhou por milhares e milhares de pessoas.

Num mar de comentaristas donos da verdade absoluta, ridiculamente infalíveis, assépticos em tom professoral, Jorge Nunes era a estrela solitária do povo – com a vantagem de ter jogado mais bola do que todos aqueles juntos. Primeiro e único como Patolino. Não foi à toa que se tornou uma das grandes estrelas da constelação da maior rádio do Rio, depois de ter batalhado muito na vida e na carreira. Dizia: “Eu só conseguir jogar em time grande aos 50 anos de idade, por isso sei honrar a camisa”, numa alusão à Rádio Tupi.

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Certa vez, num evento do Serviço Social da Construção Civil sobre futebol, lá estávamos eu e Alberto, meu amigo vascaíno e companheiro de trabalho. Jorge Nunes sentado num canto, algo em torno de 2010. Conversamos sobre futebol, ele indignado com um volante do Vasco, eu dizendo que o sujeito não era tão mau assim. Resposta do Jorginho: “Rapaz, eu não quero mal ao fulano, mas ele tem três coisas que o impedem de jogar no Vasco: é ruim, burro e azarado. Se fosse só duas, eu ainda aliviava”. Rimos muito.

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É isso que vai ficar pra sempre. O Jorge simples, engraçado, gênio do rádio, da comunicação, sem estrelismos, que falava com toda a vizinhança, todo mundo, na feira do Bairro de Fátima, sempre com compras pela rua do Riachuelo. Injustiça. O rádio leva um nocaute muito antes da hora. Onde está aquele velho Maracanã?

@pauloandel

Imagem: Ricardo Valença