Adílson, corta essa!

adilson batista

Ao longo das minhas inúmeras horas ao telefone com Zeh Augusto Catalano, as do fim do ano de 2013 foram especiais: revelavam nossas angústias de torcida, ele com o Vasco, eu com o Fluminense, ambos percebendo que a coisa não ia nada bem. Pior dizendo: iria piorar. E muito.

Na tradicional solução de emergência para sacudir times, ambos trocaram (mais uma vez) seus treinadores na parte final do Brasileiro 2013. O Vasco, antes. Então Zeh me ligou, disse o nome do escolhido e cravei: “Cara, preocupante. Não vejo como um bom nome, não creio que vá resolver o problema do Vasco”.

Depois pensei, refleti; criticar é uma coisa, desfazer da capacidade dos outros é outra.

Eu achava terrível que um dos dois times sofressem o descenso, quanto mais ambos – o que só não sucedeu porque, como todos sabem, aconteceu a maior coincidência de jogadores escalados irregularmente na história do futebol brasileiro.

O Vasco tem um longo 2014 pela frente. Batalhas, recuperação, renascimento. Haja o que houver, estará na serie A em 2015.

Jogadores vão chegar e sair, o governo vai mudar. Tem que mudar, afinal.

Continuo olhando de esguelha para o trabalho de Adílson.

Nada pessoal. Talvez tenha sido mais boquirroto do que deveria noutras vezes, ou questão de empáfia mesmo. Mas o fato é que um treinador não pode assumir o Vasco porque seu currículo registra “vitórias contra o rebaixamento”. É preciso muito mais. Veio numa emergência. Uma sequência longa em um grande time é outra história.

Não colocaria a conta de 2013 nele, Adílson, de jeito nenhum.

Seria leviano e injusto.

Mas a de 2014 é plausível.

Seja pelas opções de escalação, pelo esquema tático ou o tradicional “trabalho”, o fato é que a torcida não tem gostado do que é visto à beira do campo. E chiou no sábado, com toda razão. Ontem, o treinador me vem com a bravata de que está tudo no caminho certo. Ora, sem se ater a questões pontuais, lutar para empatar com o Bonsucesso nunca pode ser bom para o Vasco. É preciso muito mais. Caso do Fluminense também, que inventou um time reserva no momento em que ainda podia lutar pela Taça Guanabara, poupando jogadores numa semana sem partidas. Céus!

O torcedor não é bobo. Conhece do riscado. Quando vaia e reclama, percebe mais do que ninguém os problemas que, muitas vezes, os respeitáveis professores de beira-campo costumam demorar a detectar – ou até detectam, mas ocasionalmente criam soluções do Professor Ludovico que terminam em tiros n’água.

Hora de Seu Adílson abrir o olho, baixar a bola e reescrever conceitos, se pretende treinar o Vasco no segundo semestre. Humildade e bom-senso, acima de tudo em saber onde está trabalhando. Ao perceber que é um treinador iniciante, cujas maiores glórias foram evitar rebaixamentos de equipes, olhando para a grandeza do Vasco, aí sim poderá seguir em frente sem maiores percalços. Está num clube que tem a tradição de dar tempo aos seus treinadores para que mostrem serviço, salvo situações fora da curva, o que é excelente mesmo diante de todas as dificuldades já conhecidas.

No mais, a briga pelo Estadual está em aberto. Ainda que a grande imprensa vocifere seu favorito oficial diariamente, a fantasia está muito distante da realidade. Há quem diga que, terminando em quarto lugar, São Januário terá o “problema” de enfrentar a Gávea nas semifinais, lutando contra a vantagem de dois empates. Tenho vontade de rir dessas sentenças “Cidadão Kane”, daí as aspas na frase anterior.

É bom lembrar que o último Clássico dos Milhões foi decidido numa das maiores aberrações de arbitragem no futebol brasileiro contemporâneo. Este problema – sem aspas -, sim, exige toda a atenção do Vasco num momento de decisão, com farto histórico de “coincidências” que lhe vitimaram – algumas, incrivelmente legitimadas em manchetes levianas, tais como a do ladrilheiro e a das papeletas amarelas.

@pauloandel