A virada da superação

Talvez o maior símbolo da virada emocionante no clássico de ontem em que vencemos o Fluminense por 3 a 2 tenha sido o que aconteceu horas antes: o ônibus cruzmaltino deu pane na Barra da Tijuca no meio do caminho. E assim foram recrutados no caminho vários táxis para levar toda a delegação cruzmaltina a São Janu. Isso por si, já era um episódio de superação. Imagine, perder um jogo por quebra do ônibus. Superado o primeiro obstáculo, agora tínhamos que superar um outro maior ainda: o nosso adversário que vinha de boa vitória sobre um dos melhores times do Brasil, o Atlético Mineiro, fora de casa.

No início do jogo e durante boa parte do primeiro tempo, uma outra cena, no mínimo pernóstica: apareceu um drone a sobrevoar São Janu e a Barreira do Vasco com uma letra C. E isto chamou a atenção do árbitro Rafael Klaus. Ok, a provocação faz parte do futebol, mas foi uma atitude no mínimo imprudente. Provavelmente, o árbitro registrará isso na súmula e o Vasco poderá ser punido por conta disso, fora as brigas dentro da própria torcida. Registrados os fatos, vamos ao jogo. Foi um jogo emocionante do início ao fim com duas viradas, a última a nosso favor e que nos deu a importante vitória. Afinal, depois de dois contundentes 3 a 0, o Vasco precisava de uma reação a esses reversos recentes. E o Vasco começou em cima, a exemplo do jogo contra o Bahia, com forte marcação desde a saída de bola adversária. Mas o Fluminense tentou a mesma fórmula. E com isso, tivemos um jogo amarrado. Na primeira tentativa cruzmaltina, Jean chutou de fora da área, para a defesa fácil de Diego Cavalieri. O Vasco passou a dominar mais o jogo, mas pouco chegava a incomodar. Chegava bem pela esquerda com boas jogadas de Kelvin e Henrique com bons cruzamentos e em um deles, Luis Fabiano cabeceou para fora. E esse lance era o prenúncio do que vinha por aí. E de tanto tentar pelas laterais, aos 32 minutos, cruzamento, dessa vez da direita de Gilberto, a bola passa por todo mundo, Pikachu alcança a bola e cruza da ponta esquerda para Luiz Fabiano acertar uma cabeçada precisa no ângulo esquerdo, sem chances para Cavalieri. Vasco 1 a 0. Ao tomar o gol, o Fluminense se lança ao ataque e, em uma saída de bola, Paulão se atrapalha e dá um escanteio de graça para o Fluminense. E na cobrança precisa de Gustavo Scarpa, Nogueira sobe mais do que nossa zaga e cabeceia no travessão. Um susto e o primeiro tempo acaba aí.

No segundo tempo, o Fluminense veio mais disposto e com mais posse de bola, começa a nos cercar perigosamente na defesa. Com isso, surgem as chances. Aos 12 minutos, Gustavo Scarpa chuta de fora da área e Martin Silva defende em dois tempos. Pouco depois, o primeiro lance polêmico. Lançamento na área cruzmaltina e Jean, no meio do caminho com o braço colado ao corpo, a bola bate levemente em seu braço. Rafael Klaus marca pênalti para o tricolor. Antes que os amigos cruzmaltinos vociferem, a imagem na TV aponta o toque. É um lance interpretativo. Não tem como argumentar que não houve o toque. O toque houve, o que se pode contestar é apenas se Jean desviou ou não a trajetória da bola. Para o árbitro sim. E Henrique Dourado cobra com a costumeira categoria: 1 a 1. Pouco depois aos 18 minutos, o outro: em um vacilo de Gilberto na marcação a Richarlison, este chega primeiro na bola e Gilberto, na tentativa de cortar a bola para escanteio, acaba chutando a bola e o…atacante tricolor. Mais um lance interpretativo e… pênalti para o tricolor. Henrique Dourado cobra no outro canto, deslocando Martin Silva: 2 a 1 Fluminense. A partir do segundo gol tomado, começa a virada épica. E certamente o dedo de MM funcionou de forma cirúrgica. Primeiro, ele lança Manga Escobar no lugar de Kelvin. E com sua velocidade começa a dar trabalho à zaga tricolor, principalmente ao lateral Lucas. E os dois gols foram em cima dele. Aos 29, em boa jogada, ele recebe a bola de Mateus Vital, corta Lucas e Nogueira para dentro e fuzila, com um chute cruzado, Cavalieri, com a bola ao entrar em seu canto direito. Jogo empatado em 2 a 2. Com isso, os últimos 15 minutos foram os mais eletrizantes, com as duas equipes em busca do gol da vitória. E o melhor para nós estava reservado para o último minuto. E nos acréscimos aos 48, quando tudo indicava o empate, Manga Escobar recebe a bola pela ponta, corta para o meio e serve a bola a Nenê, na esquerda que fuzila Cavalieri com um chute forte de canhota: Vasco 3 a 2 e Nenê corre para a galera, um gol de redenção para um de nossos atuais ícones. Nenê não vem em uma boa fase; mas foi dele o gol decisivo para uma virada épica que não se via há um bom tempo. E para nossa equipe, ainda em formação ressalte-se, pode vir a ser o combustível para pensarmos em dias melhores. Com essa virada, estamos momentaneamente no G6, o grupo dos times que lutam por vaga para a Libertadores. Estamos momentaneamente em quinto lugar.

Para nós foi uma virada redentora talvez. Mas o mais importante e emblemático é que aos poucos, MM começa a dar uma cara e organização para esse time. Ainda temos que pensar prioritariamente, em nos mantermos na Série A; mas essa virada nos mostrou que podemos superar adversidades. A quebra do ônibus, além de um simbolismo, foi um incentivo à superação de limites. Quem sabe, essa virada possa nos mostrar que podemos ir além de uma mera permanência na Série A. MM bancou a barração de Nenê e consegue aos poucos, mostrar um time mais compacto e organizado. E com isso, o time começa a ter uma forma, uma cara. E com isso dias melhores poderão chegar talvez antes do que possamos supor. E a virada de ontem nos faz remeter a um passado em que tivemos viradas marcantes, a maior delas, contra o Palmeiras em 2000 e que significou uma Copa Mercosul, além de outras duas contra Fluminense e Flamengo no estadual de 88, com direito a gol espetacular de Romário com chapéu no goleiro. Aqui é Vasco, o Vasco é o time da virada. O time do amor. É o destino.