A mesma vontade

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Certo mesmo é que eu era um garoto com menos de dez anos de idade. Já era um tricolor com todas as minhas forças, mas cismei de colar o ouvido no velho Telefunken lá de casa, grandão, painel verde.

Torcendo loucamente para o Vasco na final de 1978. Com o som baixinho para não atrapalhar o programa Sílvio Santos da minha amada mãe.

Jogo duro, o Vasco estava a um passo de garantir a ida à final, faltava pouco tempo mas aí Rondinelli fez um golaco de cabeça. O Jorge Curi gritou que nem um louco. Curioso que tenha sido minha primeira grande decepção no futebol, ao torcer para terceiros.

O tempo passou. Veio o baile do Katinha, aquela final de 1981 com grandes gols de Roberto. O ladrilheiro. Aquilo tudo só fazia os garotos alvinegros e tricolores olharem com simpatia para a Colina quando enfrentava a Gávea. Até hoje. O grito de gol quando o Marquinho raspou de cabeça (ou não), depois do escanteio do Pedrinho Gaúcho. Copacabana urrou.

Antes disso, a decisão da Guanabara. Juntei minhas moedas. Não se via jogo a toda hora na TV. E daí que não era o Fluminense? Lá estava o velho amigo da camisa diferente, enfrentando o inimigo comum. Maracanã lotado, não essa enganação de hoje. Quarta-feira à noite, a preliminar foi dos juniores vascaínos contra o time da UFE, União Fabril Exportadora, fábrica de sabão na avenida Brasil, perto de São Januário. Vasco 3 a 0 fácil. Na grande decisão, o gol de Adílio doeu. Sou capaz de recordar a maldita explosão do outro lado. No final, o bem venceu.

Hoje tem o eterno clássico no Maraca. Esqueçam o meio de semana. É uma partida de vida ou morte. O Vasco tem lutado muito, então não custa sonhar com o impossível que não é tão impossível assim. Dá para escapar e, vencendo logo mais, um grande passo é dado.

Nem é preciso ser vascaíno para entender aquele velho Telefunken que nunca mais vi. Lá se foram 37 anos, mas o sentimento é o mesmo. E dói pensar em tudo que cercava aquela tarde, agora distante demais. Nada de Jorge Curi: vai dar Vasco.

“Menino, tira esse ouvido do rádio que faz mal para você!”

Semana passada dei uma espiada com Catalano em São Januário. Um silêncio enorme na tribuna que cheira a história. O time treinava tranquilamente. A sensação confortável de estar numa casa portuguesa, uma das casas da minha infância pelos caminhos dessa paixão doidivanas chamada futebol.

Os clássicos são eternos.

@pauloandel