A elasticidade da ética

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Tema sempre dissecado conforme a voz ativa ou passiva. Quem exige ética não aceita sua falta; os que a consideram elástica tendem a questionar.

Não me cabe aqui tecer loas a Eurico. Os vascaínos são mais bem aparelhados para a tarefa. Se coubesse, nenhum problema, exceto pelas reações coléricas de seus detratores, geralmente munidos de enorme incapacidade de diálogo quando o caso é o oponente. Ou “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

O fato aí está: o Vasco dissecado por causa da recusa de Leonardo Moura em cumprir o que ele mesmo procurou.

Pode ter seus motivos, justos (?) por sinal. Pode ter se arrependido. Ou se borrado de medo. As pessoas mudam. Jogador de grandes qualidades, em mais de uma vez utilizou a internet para sacanear (sem humor) os clubes rivais, pouco se preocupando com as consequências. Ele mesmo fez questão de aprofundar sua estreita relação com seu ex-time. Deu no que deu: a vida não perdoa, nem o tempo.

Numa sociedade universal onde reinam a violência, o egoísmo e a hipocrisia, o que importa é ser vencedor para os rastejantes intelectuais. Tem que ser o melhor a qualquer preço, levar vantagem em tudo.

Longe de crucificar o veterano  lateral-direito. A questão é outra.

Eu, você, nós, torcedores, passamos a vida inteira procurando no gramado as lembranças da infância: o craque ético, o valente defensor do clube nas quatro linhas. Sonhamos com onze torcedores no campo. Ao sairmos do transe e espiarmos em volta, a realidade é bem mais amarga: futebol “profissional”, “gestão”, “projeto”, notícias pasteurizadas e repetitivas, manchetes ocas. A nova palavra amaldiçoada: “experiência”.

Somos torcedores demais.

Nós.

Os caras que vestem a camisa dentro do gramado ou o paletó nos arredores são outra coisa. A camisa fica, os corpos se esvaem. O resto é feito de boas propostas, temores, recusas e muito, mas muito dinheiro saindo pelo ladrão – sem qualquer perspectiva de trocadilho. Ou uma ameaça de morte.

Eurico não é santo. Nem por isso está perto de ser O culpado. A lista é vasta, vastíssima. Lembrando uma velha canção de Renato Russo, “Deus está do lado de quem vai vencer”.

Felizmente, mesmo com todos os contratempos, ainda vale a pena espiar uma partida de futebol. Ainda. “Roubado é mais gostoso” é o cacete.

@pauloandel