A ausência do amigo

vasco fotos

Estou aqui há um ano e meio.

Tem sido uma senhora experiência.

Primeiro, escrever para torcedores de outro time. Com isso, perceber a receptividade e os respeitos dos vascaínos para com meu trabalho, mesmo eu não sendo um cruz-maltino.

Somente uma vez fui desrespeitado. Mas não era um vascaíno, e sim um quadrúpede desses que existem em todos os segmentos da sociedade, em todas as torcidas, todos os lugares.

O resto, uma turma bem legal.

Meu grande amigo Xuru, com quem dividi incontáveis Vasco versus Fluminense, agora mora longe, perto do céu e das estrelas ou qualquer outro lugar.

Numa tarde qualquer entre 1984 e 2000, era batata: tinha jogo, a gente ia.

Confronto no Maracanã, cada um ia para o seu lado – e ninguém prestava atenção se era o direito ou o esquerdo. A festa sempre acontecia. Na volta, ao chegarmos em Copacabana, íamos ao Bob’s ou coisa parecida.

Fizemos isso muitas e muitas vezes.

Até 1993, a gente levava fácil, embora vocês fossem carne de pescoço.

Depois disso, foram vocês que fizeram o strike.

Quando o Xuru foi embora para sempre, num sábado de muito sol eu fui às cadeiras brancas com Catalano. Vimos o jogo juntos. Um partidaço. Quatro a quatro.

Agora não dá mais.

Eu devia estar feliz porque meu time melhorou, está na parte de cima da tabela.

Devia.

Mas não estou.

Nos clássicos em que fui nesse novo estádio, tudo pareceu estranho, diferente.

Fico procurando um Maracanã que não existe mais, abarrotado, com gente saindo pelo ladrão, cem mil torcedores.

Aquele gritão de “Vaaaaaaaaaaaaassssssssssssco” do outro lado.

O meu de “Nennnnnnnnnnnsssssssssssseeeeeeeeeee”.

O futebol ficou moderno demais, gourmetizado demais, em detrimento do que valia um clássico antigamente.

Não era somente dois grandes times em campo, mas uma mobilização da cidade.

Quando estourou essa história de lado, a coisa degringolou de vez.

Amanhã talvez tenha um grande jogo.

Mas o fato de não poder estar ao lado do Catalano ou encontrar o Xuru na saída para o sanduíche tem um insuportável gosto de nunca mais.

Fico pensando o que ele, um vascaíno que não perdia um jogo em São Januário, faria se tivesse sido “convidado” a não ir ao Maracanã.

A ausência do amigo agora faz todo sentido.

@pauloandel