24 horas

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Tudo passou com uma enorme velocidade, de modo que a Copa chega ao seu desfecho. Dois jogos decisivos, um na terça e o outro na quarta. A dureza da disputa do terceiro lugar e no domingo, depois de sessenta e quatro anos, a seleção campeã do mundo será conhecida no Maracanã.

Parte considerável dos turistas já se arrancou e o Rio, aos poucos, vê diminuir a maravilhosa Babel que atravessou junho. O que é bom passa rápido.

Fora dos jogos, algumas situações lamentáveis. A primeira delas, o infeliz desabamento do viaduto em Belo Horizonte semana passada, esmagando indefesos e espalhando a dor. Outra: ontem, a perda precoce do querido Assis, eterno ídolo da torcida do meu Fluminense, após problemas de saúde – uma dor de rasgar. Ainda falando do Tricolor, o lateral Marcelo perdeu seu querido avô no sábado passado, principal incentivador de sua carreira e alvinegro fanático. Antes, Felipão perdeu dois parentes durante a competição, sendo obrigado inclusive a deixar de ir a um dos enterros por questões profissionais. Não está fácil para ninguém.

Nas quatro linhas, a perda de Neymar após a irracional joelhada de Zuñiga é um prejuízo enorme. Dispenso qualquer tentativa de se justificar a sandice do colombiano com o mofadíssimo argumento de que futebol é esporte de contato. No mundo da bola, todos sabem quando um lance violento acontece de forma involuntária ou proposital. O garoto podia ter ficado simplesmente aleijado naquele lance. Se Zuñiga fez apenas contato, então soco na cara virou cumprimento afável.

E as tenebrosas transações? Imprensa fungando no cangote de Mohamadou Lamine Fofana, o ex-jogador argelino preso por participação em um esquema de venda ilegal de ingressos da Copa do Mundo, cujo telefone celular apreendido possui 900 registros de chamadas para números que seriam da representação da Fifa no Brasil. Fosse numa competição local, certamente jogariam a culpa nas torcidas organizadas dos times, mas como elas passam muito longe dos dispendiosos assentos vendidos nesta Copa, será preciso conseguir outro boi de piranha – e muito rápido. Teve Copa sim. E problemas também, já que a hipocrisia da sociedade não é de ferro.

É necessário dizer: por mais que tenha feitos gols importantes e ajudado muito o Brasil em sua chegada ao fab four, Neymar não brilhou plenamente na Copa como se esperava e nem fez uma boa partida contra a Colômbia, justamente quando a equipe fez sua melhor apresentação na competição. Ninguém seria louco em dizer que vê-lo fora do time seria bom, mas é de se desconfiar que a Nacional apresente um futebol mais solidário e coletivo na decisiva partida contra a Alemanha. E mais: natural pensar que os jogadores brasileiros entrarão com a faca nos dentes, não somente por Neymar, mas também por Marcelo, Felipão e todo mundo. Chegou a hora da decisão e não há nada a ser adiado.

Em campo dez títulos mundiais, nove vice-campeonatos e a história de vários dos melhores jogadores de todos os tempos debaixo de cada uma das quatro camisas. O Brasil ainda não foi certeiro, mas tem a questão da superação psicológica, jogada em casa e mordido. A poderosa Alemanha fez um jogão na estreia contra Portugal e depois deu para o gasto. La Argentina chegou com a força habitual, mas em disputas sufocantes como a de sábado contra a Bélgica. E a Holanda que voa com Robben e Sneidjer penou contra a ouriçada Costa Rica, mesmo tendo perdido inúmeras chances. Entre prós e contras, tudo muito igual e difícil de dizer dos favoritos – pode acontecer qualquer coisa.

Na parte em que me cabe nestas modestíssimas linhas, cravar quem? Honestamente, deixando o coração de lado, não sei dizer. As únicas coisas que penso dos dois jogos semifinais é que o Brasil será uma tremenda carne de pescoço para a Alemanha em função da saída de Neymar e da tensão que cercou o grupo até aqui por diversos fatores. E que a Argentina não terá nenhuma facilidade contra a Laranja (ou Azulada) Holandesa,  ainda mais que perdeu Di María contra os belgas.

E então como vem o time de Felipão? Oscar virar o condutor do time no meio? A simples entrada de William no lugar vago por Neymar? Mais um zagueiro? Alguém no meio feito Hernanes? Tudo bem, eu confio que vamos nos superar em campo, mas para bater os tricampeões mundiais será preciso cortar um dobrado. Diz o velho Apolo: briga de cachorro grande. Ao lembrar do craque da Rádio  Tupi, meu coração se aperta: que injustiça foi essa que tirou o Jorge Nunes de combate meses antes da coroação de sua carreira de jornalista esportivo? No mínimo, uma tremenda injustiça nessa loucura chamada vida.

Corações a mil, qualquer falha será imperdoável. Quem chegou aqui vai acreditar até o fim. As histórias espetaculares da Copa 2014 chegam aos seus capítulos decisivos.

Falta pouco mais de vinte e quatro horas. O que me resta é telefonar à noite para Zeh Catalano e conversar sobre a bola. A da vez.

Às favas com o rigor da isenção literária: Brasil neles!

Antes que eu me esqueça: a Alemanha vai jogar de rubro-preto mesmo? Nos céus, o novo camisa 10 se chama Assis. Se forem prudentes, não arriscam.

@pauloandel