230 dias de Flamenguesa

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Poucas coisas soaram tão estapafúrdias na história do futebol brasileiro quanto aquele 8 de dezembro do ano passado.

Colocando em risco séculos de definições matemáticas e décadas de análise de probabilidades, a pobre Portuguesa colocou o pobre – e suspenso – jogador Heverton em campo, redimindo então o pobre Flamengo do pobre André Santos – escalado em 7 de dezembro de forma irregular.

De acordo com os arautos da moralidade da imprensa de futebol do Brasil – Judas Kfouri, MCP, Rizek, Renato Maurício Zando, Flavérrimo Prado e outros mais apagadinhos -, tudo não passou da maior coincidência em todos os tempos no esporte bretão praticado em nossas terras. Um azar danado. Elegeram seu vilão oficial – o Fluminense – e silenciaram o fato do Vasco ter sido jogado aos leões em Joinville, fazendo da guerra de torcidas o álibi para justificar a derrota numa partida que sequer teria sido realizada, houvesse prevalecido então o mínimo bom senso.

O grande estraga-prazeres dessa história toda é um jovem negro, alto, esguio, de 23 anos e que luta para se firmar no esporte brasileiro, chamado Samuel Rosa Gonçalves. Mais conhecido como Samuel, ele foi o autor do gol que pôs abaixo qualquer tentativa de se esconder uma farsa declarada. Explica-se: caso o Flu não vencesse seu último jogo contra o Bahia na Fonte Nova, nenhuma linha seria dada em jornais que não fosse “Vasco e Fluminense mereceram cair”. Ponto. Mas deu ruim: o garoto Samuel fez o gol no fim da partida, alguém teve um mal estar danado (muitos), a confusão em Joinville estava decretada e, se o jogo entre Atlético-PR x Vasco não ocorresse naquele 8 de dezembro – o que deveria ser o óbvio, dada a total falta de condições para a realização do mesmo – talvez algum espírito de porco se lembrasse numa redação ou estúdio e talvez algo fosse dito/escrito como “Vasco pode rebaixar Flamengo em jogo adiado”.

Mas não foi e todos sabem o que aconteceu. Para encadear a coincidência  André Santos-Heverton, era impreterível que aquela partida fosse disputada sob o caos, naturalmente enfraquecendo o Vasco, time que mais tinha a perder naquele jogo inacreditável. Parafraseando o antológico MC Magalhães, Samuel quebrou a firma – involuntariamente.

Um mês depois, a grande estrela midiática da moral do futebol brasileiro foi apresentada: o Procurador Roberto Senise Lisboa, dado a declarações estrambóticas, sugerindo que em muito breve o país seria tomado por impactantes revelações. Judas e seus asseclas cravaram: o Fluminense comprou a Portuguesa, com todo o ridículo contido nesta linha de raciocínio – para se safar de um eventual rebaixamento por meios ilícitos, o Tricolor precisaria subornar dois outros times: o Coritiba e o… Vasco. Um rival recente por conta de 2009 e um rival eterno. Mas é compreensível que os que adotem este tipo de argumento achem realmente que André Santos-Heverton foi apenas uma coincidência.

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Passaram-se dias, dias, semanas, o assunto foi murchando, evitado pelos baluartes da informação e, seja por “coincidência” ou mesmo orquestração, não se toca mais uma vírgula. Prova disso? A farta cobertura dada às recentes investigações, envolvendo o nome do Procurador Senise a supostas vendas de acordos, e sua total falta de repercussão em estúdios e redações esportivas.

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Ressalte-se a presunção da inocência até que se prove o contrário.

Pode ser que o Procurador Senise esteja completamente isento de culpa no caso.

Mas é um bocado estranho que nenhum, repetindo, nenhum jornalista esportivo da grande imprensa tenha relacionado essa questão ao fato de estar nas mãos de Senise a apuração do caso conhecido como Flamenguesa.

Pensando bem, não é estranho: Kfouri, MCP, Rizek, Renato Maurício Zan, Flavérrimo, a camarilha, ninguém se lembrou de dizer na manhã daquele domingo de 8 de dezembro que o rubro-negro André Santos tinha entrado em campo irregularmente na véspera contra o Cruzeiro e que, por conta do erro, seu time perderia 4 preciosos pontos, podendo ser rebaixado por conta disso.

Em se tratando de parte da imprensa esportiva, parece que a combinação de panos quentes e esquecimento conveniente é a alma do negócio.

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@pauloandel

Imagem: abril/ estado/ lance/ band